A deliberada repressão

Percebo de certos comentaristas, pelos teores argumentativos explicitados, que a recente proibição do uso da burca na França em espaços públicos seria a reconfirmação da sociedade cristã que rejeita tardiamente qualquer que seja a apresentação primitiva muçulmana de pensamento, a qual infesta a Europa de modo sutil mas revelador de intenções nefastas e degradantes. Contudo, acompanhada da percepção, há o comum erro em se equiparar a coerção estatal em face de qualquer manifestação religiosa e a coerção social em face do movimento não civilizacional, este geralmente reprimido em suas raízes para ser posteriormente afirmado e corroborado pelo Estado por meio da legislação impositiva de costumes.

A atividade estatal que se observou na França é o mesmo princípio da imposição homossexualista tupiniquim, quando o que importa ao sujeito estatista é justamente suprimir a opinião individual perante o fato ou acontecimento, gerando a mordaça que a alguns olhos se mostra benéfica e ausente de quaisquer futuras repressões.

Opinião, caros, somente o indivíduo profere e é deste que expresso minhas afirmações corriqueiras. A burca como símbolo do bárbaro e da precariedade filosófica há de ser reprimida, não pelo Estado, mas pelos indivíduos, dos quais emanam toda sorte opinativa de rejeição ao fenômeno que, a alguns, chamar-se-ia preconceito. Porém a opinião estritamente individualista é antagônica ao coletivo estatista, vinculado a garantir sobre a maioria ou a confirmação de seus trejeitos, ou sua total aniquilação, sempre desconsideradas as opiniões individuais.

Não importa ao caso se socialmente o movimento é irrelevante ou, do contrário, se há de certo o incômodo social amplamente discutido; importa a prevalência opinativa, pela qual transfere-se à ordem civil sua própria organização, algo inconcebível ao coletivismo que centraliza no estatismo toda deliberação acerca das mazelas que afrontam a tradição vigente. Os conceitos que envolvem a repressão de fenômenos antissociais resvalam-se nas terminologias já definidas como degradantes, tal qual o preconceituoso indivíduo que, através da palavra, traz à tona as definições óbvias e evidentes de determinado movimento. Mais natural e individualmente aceitável ao caso da burca a deliberada repressão por meio de manifestações descentralizadas, que seriam nada mais que a expressão da rejeição social levada às últimas consequências. O mesmo ocorreria ao movimento homossexualista, se não houvesse a Lei que determinaria o silêncio da maioria.

Dois pêndulos e uma mesma medida é o que ocorre nos casos apresentados. A burca não mais será discutida pelo indivíduo, porquanto proibida, e o homossexualismo não mais será rechaçado pela maioria, vez que configurada a infração legal em suas decorrentes penalidades. A isso chamam Preconceito.