A doutrina há de ser divergente

Comumente a destruição gradativa de determinado movimento parte de suas próprias esferas de influência, e não difere do prospecto a massificação teológica que afasta a criteriosidade dos estudos em pauta. A “abordagem” de temas que nada têm de específicos e enquadráveis ao estudo teológico, como a “narrativa teológica de Matrix” ou “análise teológica de Harry Potter”, apenas enfatizam o empobrecimento intelectual e filosófico da cristandade contemporânea já alastrada pelo relativismo conceitual, que é antes a causa do relativismo cultural que consegue igualar o bárbaro ao civilizado, o inculto ao sábio, a prostituta ao padre.

A Bíblia portanto é desvalorizada ao tempo da valorização pessoal dos fenômenos, gerando inevitavelmente a instabilidade doutrinária e, conseguinte, a instabilidade da identidade cristã. A pessoalidade cristã tem seu valor se não há qualquer transferência de suas convicções à Teologia, pela qual ter-se-á o estudo salvo das máculas da pobreza filosófica, meras afirmações certeiras daquele que experimenta determinado fenômeno.

E é essa a beleza da vida cristã, que consegue distinguir a participação pessoal entre o homem e Deus dos conceitos teológicos basilares à subsistência das doutrinas cristãs. O que nos resta, ou o que no falta, é o retorno à sobrevalorização da doutrinação como único aspecto a ser analisado teologicamente, definida já de antemão como descartável a convicção gerada pelos ímpetos do homem religioso. A doutrina, esta sim, há de ser divergente, vez que ampara-se em um mesmo fundamento teológico inafastável, que é Cristo.

Não somente o pentecostalismo bestial poderá ser enquadrado nos anseios da pessoalidade relativa, mas também o cursologia teológica viral que prolifera única e exclusivamente aos fins de diplomar aqueles que desejam a intelectualidade ausente de filosofia, que na trajetória revela, em verdade, a ociosidade destituída de intelectualidade, que nunca conseguirá abranger filosoficamente os aspectos doutrinários cristãos. A doutrina revela a uniformidade da mentalidade religiosa, e sua destruição se faz mediante o escambo entre a mente rude e o desprezo à Filosofia.

De tal forma que me aproximo dos ideários exclusivistas acadêmicos, quando a Universidade (e, assim, a Teologia) é antro de indivíduos previamente selecionados aos fins de produzir conhecimento como se produz cenouras. Essa seleção se dá pela análise da inserção do candidato no âmbito acadêmico, se há de fato o interesse na produção do conhecimento que gera, inevitavelmente, a produção de riqueza econômico-filosófica. O pensador intelectualmente incapaz e que não produz – do contrário, gera infortúnios e teses rasas – é automaticamente execrado em face dos prejuízos advindos, como o descrédito institucional e o devido menosprezo teórico oriundo de suas paredes.

À Instituição Acadêmica dói-lhe mais sufragar no desprezo das teses produzidas, gênese de outras decadências, a receber os valores monetários ínfimos de um inepto. Isso quando não há incentivos do Estado à manutenção do indivíduo improdutivo, sistema favorecedor do diploma, mas que anula quaisquer meios de incentivo à tese.

Na teologia o mesmo ocorre: o diplomado teólogo exaspera o Espírito, julgando-se agora justificado pela simplicidade do Evangelho. A homilética a este lhe cai como luva, contudo não entende o novato teólogo que, quando se fala em doutrinação e fundamentos da cristandade, fala-se em intelecto e produção filosófica. No caso, o incentivo não é Estatal, mas de seus companheiros que visualizam no ingênuo estudante certa tendência ao incentivo da plateia por meio da retórica e jargão religiosos.