“Estes patifes querem a absolvição”

Em uma conversa com um amigo socialista, destes que estudam teologia mas negam a preponderância da validade bíblica no seio do protestantismo (como se negá-la fosse mero detalhe superável aos fundamentos da cristandade), sob o medo de inevitavelmente atribuir ao Ocidente capitalista o alicerce da civilização, estendi comedidamente os aspectos que envolvem a santificação do ócio e, por decorrência, a falácia da marginalidade como inerência do meio, afastando-se qualquer perspectiva de caráter e/ou debilidade intelectual.

Ainda, afirmando a característica fundamental do esquerdismo que é o louvor a tudo o que anula a educação civilizacional, trazendo à ordem os ativismos da baderna, tal como educando a sociedade pela imposição do ensino público fundamental e o devido registro trabalhista em face de qualquer atividade que gere riqueza e manutenção do consumo, encontrei no meu interlocutor o diálogo da vitimização, como um espelho inquebrável da tese girardiana da “boa vítima” e seu pedúnculo disseminatório do caos generalizado.

Certamente lembrei-me da passagem de Albert Camus, na obra A Queda, em um ensinamento que não deve ser dispensado:

Somos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o gênero humano e o céu. Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos parabéns pelos esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. Pelo contrário, ele rejubilará, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se dissermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu caráter, mas com infelizes circunstâncias, ele ficar-nos-á violentamente reconhecido. Durante a defesa, escolherá mesmo este momento para chorar. No entanto, não há mérito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente, de nascença! Como se não é certamente mais responsável em ser-se criminoso por natureza que em sê-lo devido às circunstâncias. Mas estes patifes querem a absolvição, isto é, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justificações da natureza e desculpas das circunstâncias, mesmo que sejam contraditórias. O essencial é que sejam inocentes, que em suas virtudes, pela graça do nascimento, não possam ser postas em dúvida e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam senão provisórios. Já lhe disse, trata-se de escapar do julgamento.