Grande poeta

A forma da vida e suas peculiaridades encontram na maca a resistência sofrível, esta que afigura ao homem sua fraqueza quando pelos tubos e adornos dos maquinários que expelem vida vê-se a inevitável decadência do corpo. Mas observando o curioso menino à senhora, que anteriormente tivera seus momentos de alegria com o amado no Parque das Flores, não a viu senão pela estima do papel cumprido e da vida vivida em todas as suas forças. O acrílico o separava do âmbito da paciente, e com o pequeno nariz encostado no objeto sentia como expectador do espetáculo da despedida.

Seu amado, ao lado da senhora, enxugou as lágrimas e com os dedos senis e trêmulos inclinou-se à companheira, e dando um beijo proferiu palavras surdas e somente a ela destinadas, palavras que ao menino lhe fez perceber o esmorecimento do corpo da senhora, aliviada em poder dormir eternamente com a lembrança do conforto da poesia que traspassa os indivíduos quando atordoados pela perda vindoura. E com os dedos alisando o rosto do senhor a senhora então sorridente sussurra espasmos de frases quase imperceptíveis, de natureza também misteriosa, mas ainda com os dedos sobre a face do companheiro fecha os olhos lentamente, que ao menino se teve como o sono do esvaecimento. Sobre o corpo o senhor derrama as últimas lágrimas, mas com as mãos segurando os cabelos da amada levanta os olhos aos céus e, como que aliviado pala circunstância de uma longa espera, achando-se agora justificado pelos erros do passado, perfazendo a tenacidade de respirar sob os cumprimentos da morte, levemente sorri, levemente chora, porém nada além de gestos incompreensíveis ao menino, agora de olhos arregalados que chamado pela voz materna sequer lhe dá ouvidos: estava impregnado pela imagem que o faria amante, sonhador, grande poeta.

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