Minha aversão

Fenômenos bizarros da contemporaneidade como a música gospel, a Teologia da Libertação ou o pentecostalismo não são, como se faz parecer, movimentos que surgiram concomitantemente à degradação do estudo teológico, que infectado pelo relativismo acadêmico europeu transpareceu amadoramente certa tendência ao niilismo. É, antes, a origem dos mesmos fenômenos. Contudo se pela retórica comum Deus ama o pecador, mas odeia o pecado, o pentecostal é desprezível antagonicamente ao próprio movimento pentecostal, que exerce suas credenciais dentro de uma aceitabilidade bíblica ainda que escassa e essencialmente contraditória. Separemos, portanto, o pentecostalismo de seus fiéis tendo em mente que os indivíduos pentecostal e protestante são como água e óleo em um mesmo recipiente.

Assim é que, em sendo o movimento pentecostal um fenômeno surgido nas entranhas do século passado e de historicidade nula, a propagação, por um pentecostal, das maledicências do imediatismo pós-moderno e de suas mazelas à cristandade é a negação sumária da tendência do movimento em se adequar parasitamente a qualquer realidade econômico-social. Não estranhamente os maiores ícones do socialismo cristianizado são pentecostais que, em outras épocas, alimentando-se de outras vertentes, impuseram-se como delatores do evangelho deturpado, se assim se pressupunha  aquele que não se submetia à primazia dos dons e milagres.

De fato que minha aversão aos pentecostais se dá principalmente pela natureza histórica, afinal indivíduos oriundos de um movimento que na Rússia apoiou o comunismo, na Itália o fascismo e, na Alemanha, o nazismo, não exercem credenciais extensas na probabilidade de que o fenômeno não irá novamente ocorrer. Aliás, o que se tem visto é justamente o acompanhamento desse estigma, tendo em vista os recentes movimentos ambientalistas narrados por ícones e personalidades carismáticas.

Ingenuidade, caros, acreditar que um movimento impregnado pela essência e odor fétido da transmutação ideológica – que adequada a qualquer circunstância favorecedora infere a inchação numérica – vá por iluminação divina alterar cem anos de infecção cultural. A virulência e a inconstância intelectual dos mesmos, vistos como andarilhos ora em ativismos anti-institucionais, ora em ativismos de rodeios de milagres e proezas, não é fator de ignorância e superstição medievais e, sim, característica inevitável que se retirada anularia o próprio movimento.

O que me elucida a impossibilidade de certa evolução intelectual dentro do pentecostalismo é justamente encontrar em seus antros personagens respeitáveis, e que inferem no meio teológico teses basilares. Destes emanam argumentos que relam no calvinismo mas não lhe oferta os créditos devidos; mas necessitando do imediatismo joviano retornam ao animismo da alma como fator infindável de manifestações, das quais se justificam toda e qualquer performance de exteriorização das ansiedades espirituais.

Se há aquele que se diz ter sido calvinista sem ler As Institutas, há também o pentecostal que, se confrontado em sua fé, afirma-a pelos testemunhos alheios, destes observáveis nos púlpitos de cada esquina e que finalizam o ciclo da não-intelectualização do movimento.

É o fardo de qualquer ativismo animalesco unicamente respaldar-se no que ditam os seus semelhantes. E o que afirmo por “animalização do cristianismo” é, justamente, o abandono da intelectualidade filosófica em detrimento de palavras proferidas na previsibilidade dos triunfos individuais.

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