Fundamentalmente rudes

A complexidade da mitologia não reside essencialmente no relato, mas nos significados intrínsecos que constituem a idéia central dos símbolos demonstrados, de tal forma que a narrativa tem sua simplicidade quase natural transformada em palavras representativas de uma realidade não compreendida.

Ainda que pelo esforço teológico objetivista, as visualizações antagônicas da criação do homem respaldam a decadência das interpretações sub-rogadas aos conceitos meramente afirmativos; não obstante tem-se a progressiva ruína da limitação interpretativa – algo chamado de “relativismo pós-moderno”. Interpretar um texto mitológico e fazê-lo o espelho da realidade incontestável é aniquilar a profundidade de sua mensagem e desfazê-lo ao pó do literalismo. A poesia, de igual forma, quando interpretada pelas regras da realidade, sucumbe à objetividade do observador, e vai-se embora sua beleza, tal qual o relato simbólico.

Quando o literalismo faz o papel do entendimento da narrativa de Gênesis deve-se ter como consolo que a realidade pressupõe sua mensagem: a beleza e a desenvoltura da narrativa ficam restritas ao desvendo das causas perante as conseqüências relatadas, e a irrevogável tendência na objetivação científica do romance.

Basta trazer a narrativa ao campo sistemático e estará perdida sua função procípua de ensinamento.

Teorias abraçadas ao experimentalismo científico tentam estabelecer o sossego à justificação sistemática. Mera especulação de credulidade resume-se, essencialmente, aos aforismos científicos de comunidades criacionistas, que por sinal tentam insistentemente trazer ao patamar sistemático a fé às tendências religiosas de massificação.

Se pelo lado menos brilhante da moeda almejam estabelecer um franco diálogo com a comunidade científica, a estagnação conceitual – amparada pelas mentes mais convictas e abrasileiradas – sofre o apego de transformar metáfora em verificação plausível, comumente naturalística ao enredo e de objetivos teológicos claros e concisos. Um antagonismo irônico à comunidade pós-darwiniana.

Entretanto, o coletivo religioso joga os pequenos galhos na fogueira inquisitória: a exaltação da ciência pela busca do Início é o afastamento da teologia falseadamente científica. É necessário, portanto, todo e qualquer esforço para a negação das teorias científicas, contudo a reafirmação de um relato metafórico – porém enrijecido em suas proposituras – tem sua cadeira separada à superstição.

Pela fé se valem da ciência para respaldar conceitos que destróem até mesmo a tentativa religiosa do aprendizado: fulminam o que realmente interessa na narrativa de Gênesis para a concretização de um sentimento apaixonado às certezas acadêmicas; certezas religiosas fundamentadas na fé como superstição. Por sinal, certezas comandadas pela sistemática científica e ausente de total filosofofia, apoéticas e fundamentalmente rudes.