A piedade do mundo

Há duas causas principais. Uma é o fato de que, por cerca de cem anos, nos concentramos tanto em uma das virtudes – “benevolência” ou piedade – que a maioria de nós sente que nada é realmente bom, a não ser a benevolência, ou que nada é realmente ruim a não ser a crueldade. Esses tortuosos avanços éticos unilaterais não são incomuns, e outras épocas também tiveram suas virtudes favoritas como também suas curiosas irracionalidades. E se uma deve ser cultivada à custa de todas as outras, nenhuma tem maior apelo que a piedade – pois todo cristão deve rechaçar com repugnância campanhas disfarças a favor da crueldade, que tentam extrair a piedade do mundo, definindo-a por nomes como “Humanitarismo” e “Sentimentalismo”. O problema real é que a “benevolência” é uma qualidade inevitavelmente fácil de atribuir a nós mesmos com parâmetros inteiramente inadequados. Todos se sentem benevolentes quando nada os está aborrecendo.

Dessa forma, o ser humano facilmente vem a se consolar de todos os seus outros vícios com a convicção de que “seu coração está no lugar certo” e de que “ele não faria mal a uma mosca”, embora nunca tenha feito o menor sacrifício pelo próximo. Julgamo-nos benevolentes quando estamos apenas contentes. Não é nada fácil, com os mesmos parâmetros, imaginarmo-nos comedidos, castos ou humildes.

C. S. Lewis em O problema do sofrimento