O primeiro ressentimento

Pedro não discernira a cena, e de forma naturalmente imatura contemplou as nuances da vida facilmente descartada, aos oito anos o garoto que era. A vista do morro não trazia grande espetáculo: o dia chuvoso impediu o decair da noite que emocionava sua mãe. “A culpa são daqueles que lá embaixo vivem”, explicou a seu filho as causas do assassínio acometido ao lado de sua residência. E não de outra forma, trazendo-lhe as lembranças de seu pai, que traficante fora esquartejado pelos companheiros, de certa forma estabeleceu quando em seus quinze anos certa plausibilidade à admoestação materna.

Com os olhos compenetrados na vida “ao sul”, como diziam os colegas, observando os carros que ano a ano alteravam-se a belos detalhes e sofisticações inimagináveis, em sua mente Pedro sentira o primeiro ressentimento claramente estabelecido. A inveja tem vários nomes, diz-se comumente. Sentira-se vítima, não obstante o reflexo da culpabilidade dos grandes comerciantes da orla principal, pondo-se calmamente em posição reflexiva, desde o início o traço de sua personalidade e imaginando qual caráter efetivamente trazia aos sulistas a responsabilidade à miséria de sua família. A razão não era a mãe que aos dez escolheu abandonar a escola paga pela tia, sequer do pai que ainda vivo e debruçado aos vícios e posteriormente patrão batia-lhe constantemente sob o medo de dar ao filho mesma herança.

Sua família deleitava-se na fome e na escassez por única e primária responsabilidade daqueles outros que laboravam aos seus próprios interesses ou, conforme se reluta, às próprias famílias. “Dêem-me um pouco de suas rendas!”, exclamou Pedro certa vez, quando abandonou as vendas frutíferas da esquina da rua Gonçalo após a fadiga de oito horas diárias. “Como podem não nos dar um pouco, se tanto têm eles?”, era seu pensamento constante. Imaginava adentrado aos automóveis de bela carcaça cujos bancos eram aveludados. Imaginava a doação compulsória e obrigatória de suas rendas.

Mas retornando a seu lar, enfezado pelo ódio de uma vítima indefesa, alardeado pela ingenuidade de suas convicções e predisposto à vingança contra os opressores acovardados envolvidos pelas cercas eletrificadas, reclinou a cabeça soturnamente e, titubeando em indecisão retórica, afirmou a si mesmo com perspicácia que o sorriso alheio era sua desgraça; que a riqueza do próximo era sua pobreza indecifrável; que o labor alheio era seu premeditado ócio e o conforto, um direito.

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