O estatismo deu-nos as grandes tragédias

As duas tradições são historicamente identificáveis. O estatismo deu-nos as grandes tragédias humanas do séc. XX e está associado à legislação do absolutamente trivial e irrelevante — porque é simbólico do novo mundo que se quer refundar. Fizeram-se bandeiras novas, inventaram-se hinos, adoptaram-se línguas, mudaram-se ortografias e sistemas de medidas e pesos, impuseram-se maneiras de vestir, decapitaram-se reis, fizeram-se purgas e elogiou-se o Estado (com maiúscula) como expressão máxima da civilização. O liberalismo deu-nos prudência, reformas sucessivas concretas, trabalhadores bem pagos, com acesso à educação e à cultura, férias pagas, fins-de-semana, direitos concretos, pequenas intervenções na economia que corrigem injustiças e produzem mais riqueza, mais bem distribuída ou redistribuída. No liberalismo não se reinventa do zero a sociedade; aceita-se as tradições, se nada de errado em concreto tiverem. E não se encara a pessoa humana como obstáculo à realização do sonho político. Porque se sabe que esses sonhos são invariavelmente pesadelos, e nenhum sonho político vale mais do que um só ser humano. Esses sonhos são invariavelmente pesadelos porque somos demasiado estúpidos para conseguir imaginar sequer, mesmo sob a forma de literatura, o paraíso na Terra, a justiça universal, a felicidade cósmica. Por isso, em nome de um sonho que nem sequer sabemos sonhar adequadamente, quanto mais efectivar correctamente, não é avisado mexer no que não vale a pena mexer. A soberba epistémica paga-se caro, mas quem a paga não é geralmente quem a adopta: é antes a multidão de despojados que acreditam num sonho que infelizmente era afinal um pesadelo.

Não se segue daqui um elogio da tradição pela tradição. Muitas tradições estão erradas e precisam de ser mudadas. Pensar que tudo o que herdamos nas nossas tradições é perfeito é tanto uma ilusão epistémica quanto pensar que podemos imaginar agora a partir do zero uma sociedade perfeita. O que precisamos é de casuística aristotélica, e não de axiomáticas hegelianas. Podemos e devemos rejeitar tradições por serem injustas, mas devemos igualmente desconfiar das utopias políticas. A mesma dose módica de cepticismo quanto aos poderes epistémicos dos seres humanos que é a cura para a soberba axiomática de querer recomeçar do zero é também a cura para o tradicionalismo cego que aceita tudo o que um ancião escreveu ou determinou no passado primevo.

Desidério Murcho