Um milhão de pessoas sofrendo

Jamais devemos tornar o problema do sofrimento maior que já é, aludindo vagamente a uma “soma inimaginável de infelicidade humana”. Vamos supor que eu tenha uma dor de dentes de intensidade x e que você, posicionado ao meu lado, também comece a ter uma dor de dentes de intensidade x. Você poderá dizer que a quantidade total de sofrimento é agora de 2x, mas você precisará lembrar que ninguém está sofrimento 2x. Procure a qualquer tempo e em qualquer espaço e não encontrará aquele sofrimento composto na consciência de ninguém. Não há nada que se pareça com uma soma de sofrimento, pois ninguém a sofre. Quando atingimos o máximo que uma única pessoa pode suportar, chegamos, não resta dúvida, a algo horrível, mas atingimos todo o sofrimento que pode haver no Universo. A soma de um milhão de pessoas sofrendo não acrescenta mais sofrimento.

C. S. Lewis em O problema do sofrimento

O primeiro ressentimento

Pedro não discernira a cena, e de forma naturalmente imatura contemplou as nuances da vida facilmente descartada, aos oito anos o garoto que era. A vista do morro não trazia grande espetáculo: o dia chuvoso impediu o decair da noite que emocionava sua mãe. “A culpa são daqueles que lá embaixo vivem”, explicou a seu filho as causas do assassínio acometido ao lado de sua residência. E não de outra forma, trazendo-lhe as lembranças de seu pai, que traficante fora esquartejado pelos companheiros, de certa forma estabeleceu quando em seus quinze anos certa plausibilidade à admoestação materna.

Com os olhos compenetrados na vida “ao sul”, como diziam os colegas, observando os carros que ano a ano alteravam-se a belos detalhes e sofisticações inimagináveis, em sua mente Pedro sentira o primeiro ressentimento claramente estabelecido. A inveja tem vários nomes, diz-se comumente. Sentira-se vítima, não obstante o reflexo da culpabilidade dos grandes comerciantes da orla principal, pondo-se calmamente em posição reflexiva, desde o início o traço de sua personalidade e imaginando qual caráter efetivamente trazia aos sulistas a responsabilidade à miséria de sua família. A razão não era a mãe que aos dez escolheu abandonar a escola paga pela tia, sequer do pai que ainda vivo e debruçado aos vícios e posteriormente patrão batia-lhe constantemente sob o medo de dar ao filho mesma herança.

Sua família deleitava-se na fome e na escassez por única e primária responsabilidade daqueles outros que laboravam aos seus próprios interesses ou, conforme se reluta, às próprias famílias. “Dêem-me um pouco de suas rendas!”, exclamou Pedro certa vez, quando abandonou as vendas frutíferas da esquina da rua Gonçalo após a fadiga de oito horas diárias. “Como podem não nos dar um pouco, se tanto têm eles?”, era seu pensamento constante. Imaginava adentrado aos automóveis de bela carcaça cujos bancos eram aveludados. Imaginava a doação compulsória e obrigatória de suas rendas.

Mas retornando a seu lar, enfezado pelo ódio de uma vítima indefesa, alardeado pela ingenuidade de suas convicções e predisposto à vingança contra os opressores acovardados envolvidos pelas cercas eletrificadas, reclinou a cabeça soturnamente e, titubeando em indecisão retórica, afirmou a si mesmo com perspicácia que o sorriso alheio era sua desgraça; que a riqueza do próximo era sua pobreza indecifrável; que o labor alheio era seu premeditado ócio e o conforto, um direito.

O estatismo deu-nos as grandes tragédias

As duas tradições são historicamente identificáveis. O estatismo deu-nos as grandes tragédias humanas do séc. XX e está associado à legislação do absolutamente trivial e irrelevante — porque é simbólico do novo mundo que se quer refundar. Fizeram-se bandeiras novas, inventaram-se hinos, adoptaram-se línguas, mudaram-se ortografias e sistemas de medidas e pesos, impuseram-se maneiras de vestir, decapitaram-se reis, fizeram-se purgas e elogiou-se o Estado (com maiúscula) como expressão máxima da civilização. O liberalismo deu-nos prudência, reformas sucessivas concretas, trabalhadores bem pagos, com acesso à educação e à cultura, férias pagas, fins-de-semana, direitos concretos, pequenas intervenções na economia que corrigem injustiças e produzem mais riqueza, mais bem distribuída ou redistribuída. No liberalismo não se reinventa do zero a sociedade; aceita-se as tradições, se nada de errado em concreto tiverem. E não se encara a pessoa humana como obstáculo à realização do sonho político. Porque se sabe que esses sonhos são invariavelmente pesadelos, e nenhum sonho político vale mais do que um só ser humano. Esses sonhos são invariavelmente pesadelos porque somos demasiado estúpidos para conseguir imaginar sequer, mesmo sob a forma de literatura, o paraíso na Terra, a justiça universal, a felicidade cósmica. Por isso, em nome de um sonho que nem sequer sabemos sonhar adequadamente, quanto mais efectivar correctamente, não é avisado mexer no que não vale a pena mexer. A soberba epistémica paga-se caro, mas quem a paga não é geralmente quem a adopta: é antes a multidão de despojados que acreditam num sonho que infelizmente era afinal um pesadelo.

Não se segue daqui um elogio da tradição pela tradição. Muitas tradições estão erradas e precisam de ser mudadas. Pensar que tudo o que herdamos nas nossas tradições é perfeito é tanto uma ilusão epistémica quanto pensar que podemos imaginar agora a partir do zero uma sociedade perfeita. O que precisamos é de casuística aristotélica, e não de axiomáticas hegelianas. Podemos e devemos rejeitar tradições por serem injustas, mas devemos igualmente desconfiar das utopias políticas. A mesma dose módica de cepticismo quanto aos poderes epistémicos dos seres humanos que é a cura para a soberba axiomática de querer recomeçar do zero é também a cura para o tradicionalismo cego que aceita tudo o que um ancião escreveu ou determinou no passado primevo.

Desidério Murcho

A ausência predita das virtudes individuais

Presenciar um naturalista ingenuamente citar Leonardo Boff é encantador, contudo o desprezo repentino é inevitável e evidentemente humano. Certamente tal ocorre porquanto Boff não consegue separar dissimuladamente sua intenção da escrita, exemplificando a cada palavra o que por detrás há de mais primitivo na ecologia. E se a consideração de Boff como um pagão é automática, a superioridade cultural do cristianismo – ou, leia-se, do Ocidente -, demonstra-se em demasia irrefutável. Ocorre que o autor de diversas pérolas ecológicas não somente escreve e dita os liames do ambientalismo católico-marxista, porém é também caracterizado um filósofo e intelectual apto ao deslinde de todo e qualquer paradigma apocalíptico.

Assim é que Boff, ao afirmar que a Mãe Terra encontra-se estressada, tem a plausibilidade de sua tese minimamente analisada quando o sensato dentro da comunidade filosófica acadêmica seria a sumária descartabilidade. Aquele que lê Tim LaHaye deveria de pronto debruçar-se nos avisos de piedosos como este que cá comento e aquele que lá consegue a proeza de submeter o aquecimento global e a nova era glacial a um mesmo fator retórico.

Afirmo “seria” porque a visão de Boff como intelectual ambientalista está intrincado ao fato de que naturalmente o mesmo age em detrimento da opressividade alheia. Seus argumentos se constroem sob o alicerce de anteriores desgraças meritocráticas, que hão de expressar o problema da igualdade: o igualitarismo, novamente afirmo, é a ausência predita das virtudes individuais.

Eis o perigo daqueles que fundamentam seus anseios nas palavras do ecologista, vez que, de uma forma ou de outra, convergir-se-á  a tese exposta em mera faceta que antecede os argumentos igualitários. Faltam-nos, contudo, autores predispostos em adequar esclarecidamente a relação íntima entre o igualitarismo e o socialismo oriental; ou, retoricamente mais específico, a inevitabilidade da relação apaixonada do igualitarismo e a coisificação do indivíduo, o genocídio da personalidade, o totalitarismo da previsibilidade, uma hipótese sobre por que o nazismo tem a fama pior que o comunismo.

William Hazlitt e adjetivações rodriguianas

Se na imprensa convencional a constatação do descartável se torna mais frequente, é na internet que belamente se elucida o preenchimento do vazio televisivo, ou da entropia jornalística do periódico minocartista. Rodrigo Gurgel nos brinda com duas citações elementares, respectivamente, William Hazlitt, Humanista com “h” maiúsculo, e Nelson Rodrigues, em sua adjetivação sublime:

O princípio do sufrágio universal, por mais aplicável que seja a questões de governo, que têm a ver com os sentimentos e os interesses comuns da sociedade, não é aplicável, de modo algum, aos assuntos do gosto, pois, estes, só podem julgá-los os espíritos mais refinados. A humanidade nunca pôde entender completamente os maiores esforços do gênio, em qualquer uma das artes. Há uma infinidade de belezas e verdades muito além da sua compreensão, que chegam a ser comuns no mundo porque o refinamento e a sublimidade se misturam com outras qualidades, de natureza mais óbvia e vulgar. O gosto constitui o grau mais elevado da sensibilidade, assim como a impressão que atua sobre as mentes mais refinadas, da mesma forma que o gênio é o resultado da força do sentimento e da invenção. Pode-se dizer, no entanto, que o gosto público é suscetível de uma melhora gradual, pois o povo termina fazendo justiça às obras de maior mérito. Semelhante ideia é um erro. A reputação que, ao final, e quase sempre lentamente, se concede às obras de gênio provém da autoridade, não do assentimento popular nem do senso comum do mundo.

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Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os “melhores” que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém – “E que fazia o idiota?”. Resposta: – fazia filhos (…) E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os “melhores” se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.

E adiciono esta do ensaísta:

O brasileiro, inclusive o nosso ateu, é um homem de fé. Conheço vários marxistas que são, ao mesmo tempo, macumbeiros. E um povo que pode conciliar Marx e Exu está salvo e, repito, automaticamente salvo.

O breve contato com Naomi Klein

Devo assumir que o breve contato com Naomi Klein se deu em uma entrevista no programa Charlie Rose Show, que explicando seu livro No Logo inspirou-me facilmente a atribuí-la conotações anticapitalistas, apesar de sua aparência e retórica adolescentes. De fato. Eis que dela ressurge a antiga e predisposta afirmação: “o capitalismo é opressor”. Mas o interessante de seus discursos é a tentativa constante e premeditada de fundamentar a opressividade do livre mercado com os argumentos de Milton Friedman: segue-o como a criança ao pirulito e nas palestras indica o economista como seu rival, senão inimigo nato.

Há pensadores coletivistas que inclinam meu respeito, mas não quando a afirmação é a releitura de velhos hábitos de anticapitalistas ianques, que debruçados no conforto do mercado acham-se premeditados em avisar o mundo as mazelas de seus edredons.

Naomi Klein, contudo, envergonha seus companheiros ao estabelecer um parâmetro de comparação entre sua tese e a plausibilidade econômica da teoria de Friedman,  que esmaga-a sumariamente apesar dos esforços constantes em tê-lo como um econômico póstumo e irrelevante. Naomi, então persuadida como uma intelectual, lança suas pérolas em seminários que enfatizam a libertação da América Latina da opressora realidade das corporações, conforme os exemplos por ela ofertados: Bolívia, Equador, Paraguai, Brasil, Venezuela – ícones da civilização humana.

E ela torna a falar rapidamente enquanto Rose a fita com olhar de tédio e previsibilidade: é a decadência da imagem de Klein como intelectual, conquanto interrompida pelo entrevistador facilmente nos presenteia um semblante de frustração. Charlie Rose pergunta, acerca do desastre em New Orleans, dos méritos da rede de supermercados Walmart, elogiada pois que administrou abrigos à população. Naomi gagueja amadoramente e o entrevistador preza por outro assunto.

E antes brinca sutilmente Charlie Rose: “curioso que após sua morte ainda falamos de Friedman”.

Naomi Klein torna-se irrelevante.

O filósofo bárbaro

One of the most astute “sign readers” of today is the reigning Pope. Here is one of Benedict XVI’s most startling yet accurate readings: “We are moving toward a dictatorship of relativism which does not recognize anything as for certain and which has as its highest goals one’s own ego and one’s own desires.” If I might put it into less philosophical terms, what the Holy Father is telling us is that Western culture is descending into barbarism.

We tend to associate barbarism with images of primitive savages looting and pillaging villages, razing the walls of cities, and enslaving women and children. However, the Holy Father is suggesting here an entirely new kind of barbarism, one with a distinctly spiritual character. Civility is the quality of soul and society by which we recognize not only that other people exist, but also that they have the right to our courtesy, dignity, and respect. Civilization, then, as the opposite of barbarism, is founded upon the recognition of the dignity and rights of the other. Thus, a culture in which “the highest goals [are] one’s ego and one’s own desires” is the very definition of barbaric.

[…]

The philosophical barbarian does not wish to have any external demands imposed upon him, for he desires all of reality to conform to his presuppositions, prejudices, and plans. He is unwilling to open his soul fully to the objects and entities around him, for he does not trust that any good will come to himself from such vulnerability. Instead of accepting the imposition of an objectively real world with infinite plenitude and profundity, he imposes upon it his paltry perspective, thereby rejecting a rich, resplendent reality for a scanty and superficial one. He reduces reality to the size of his shrunken soul. Since the less there is to know, the less there is to love, the end result of this barbaric state of soul, tantamount to staring at one’s spiritual navel, is perpetual, relentless boredom.

Thaddeus J. Kozinski