Uma hipótese sobre por que o nazismo tem fama pior do que o comunismo

Em O Indivíduo leio a pérola de Pedro Sette-Câmara:

Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.

O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.