A vítima e o opressor

Os conceitos equivocados quando apreciados pela filosofia trazem em si a objetividade de ser afastado, sumariamente,  qualquer respeito à tese exposta. É por tal motivo que o filósofo, quando expõe a concepção da realidade de forma anacronicamente estabelecida, como partícipe da quimera que instiga a mera especulação, não enseja grande curiosidade pela limitação teórica, não obstante, de seu equívoco essencial.

De tal forma que não é o pensador aquele necessariamente submetido à busca da Verdade filosófica, ou de sua ausência, conforme Nietzsche nos ensina, contudo, se orientado pelas premissas da Filosofia, submete-se automaticamente às caracterizações do que é antagônico ao verdadeiro, leia-se, a mentira estabelecida.

Mas a boa intenção reina na intelectualidade contemporânea e a terminologia “mentiroso” tornou-se adjetivação depreciativa e não de fato uma avaliação da tese ofertada. Aquele que mente, portanto, expondo sua tese de forma errônea e com pressupostos sabidamente safados é envolvido pela intenção subjetivada, que há de trazê-lo ao conforto da aceitação do ingênuo e leigo no que por detrás se escora o intelectual em suas afirmações. Para tanto, como não sobrevive a tese no invólucro da mentira se inexistente a vítima e o opressor, seleciona-se antecipadamente ambos os polos na sustentação da tese exposta, que ainda incompleta termina o desfecho sempre indicando quem são aqueles que oprimidos merecem a liberdade inevitável, antes indisponível, porém agora pelo oráculo revelada.

Uma hipótese sobre por que o nazismo tem fama pior do que o comunismo

Em O Indivíduo leio a pérola de Pedro Sette-Câmara:

Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.

O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.

És um tolo

Onde estão todos aqueles que trouxeram a lenha a esta senhora? Onde está o padre que lhe ungira o último clamor, quando ainda amarrada pelas cordas implorava por clemência?, exclamou um dos observadores, que em desespero perante as imagem choramingava impetrando suas indagações. Porém em circunstância propícia ao consolo o padre lhe explicou a essência do sacrifício àquele que antes implorava misericórdia à velha:

– Esta senhora, meu caro, que praticava as ciências ocultas cuja perversão se evidenciava em suas vestes é um símbolo e estigma desta comunidade. Sacrificá-la trouxe-lhes a paz e a comodidade. Vejam! Aram as terras com sorrisos premeditados e com fervor aplicam as advertências a seus filhos travessos. A idosa que jaz pregada na macieira não é outro objeto que o gatilho à manutenção dos bons servos, que necessitam das calamidades das preces e palavras de conforto.

Levantou os olhos ao céu nublado, e continuou.

– A calamidade, o sacrifício, a vítima que instiga esses crédulos lhes dão o combustível de novas interpretações e, se não bastasse, o prestígio de se argumentar acerca das soberanias da Fé. “Foi-lhe permitida a morte pelo bem de sua própria alma”, ouve-se a todo o momento. Mal percebem que se limitam à obviedade da desgraça, desapegados do principal. Deus em nada se envolve quando está sobre o ombro do homem a responsabilidade pela manutenção de nossos servos, que de tal forma apaixonados pelo tétrico constantemente retornam a argumentar sobre a providência divina.

– És um tolo, santo padre. Em breve, esta mesma matula irá procurar por outra calamidade para que se justifiquem os anseios de suas mentes. Em breve, santo padre, tu irás também convergir a tal situação. Irás a tempo ser escolhido como a vítima, o coitado, ou a escória pela qual regem-se as desgraças da comunidade. Um tolo, nada mais, que não percebe a magnitude desse enredo: desfigurada pelo fogo, a velha é a predição e a gênese de eternos sacrifícios, intermináveis, e que culminam na aniquilação total e irresponsável.

O beato assentiu com a cabeça, e se retirou à capela.

Haiti e Brasil

2009 Index of Economic Freedom, da Heritage Foundation, estabelece seus parâmetros de análise que são comumente de duvidosa qualidade. Contudo, constata-se algumas das peculiaridades que regem os países classificados como subdesenvolvidos: o mercado é amparado pela piedade do Estado. O Haiti, que sofre com a devastação completa de suas estruturas básicas após os recentes acontecimentos, segue o caminho do qual o Brasil insiste abraçar: as semelhanças são evidentes e, não obstante, caracteristicamente assistencialistas.

Eis alguns trechos:

The overall freedom to conduct a business is severely impeded by Haiti’s burdensome regulatory environment. Starting a business takes an average of 195 days, compared to the world average of 38 days. Obtaining a business license takes about five times longer than the world average of 234 days.

Haiti’s simple average tariff rate was 2.8 percent in 2006. Import controls, import quotas on some food products, some import licensing requirements, inadequate trade capacity and infrastructure, inefficient port administration, and customs corruption add to the cost of trade. Fifteen points were deducted from Haiti’s trade freedom score to account for non-tariff barriers.

Haiti has high taxes. The top income tax rate is 30 percent, and the top corporate tax rate is 35 percent. Other taxes include a value-added tax (VAT) and a capital gains tax. Fiscal reform was abandoned when an incoming loan was diverted for other uses. In the most recent year, overall tax revenue as a percentage of GDP was 9.4 percent.

Inflation is high, averaging 11.0 percent between 2005 and 2007. Prices are generally determined by the market, but the government restricts markups of some products (retailers, for example, may not mark up pharmaceutical products by more than 40 percent) and strictly controls the prices of petroleum products. Ten points were deducted from Haiti’s monetary freedom score to adjust for measures that distort domestic prices.

Authorization is required for some foreign investments, particularly in electricity, water, public health, and telecommunications. The government has expressed interest in liberalizing aspects of the investment regime, such as telecommunications and energy, but there has been little progress. Inadequate regulatory capacity, corruption, bureaucratic inefficiency, and political instability deter investment. Residents may hold foreign exchange accounts for specified purposes, and non-residents may hold them without restriction. There are no restrictions on payments, transfers, or capital transactions. Foreign ownership of land is restricted.

[…] New banking legislation that was submitted for parliamentary approval in mid-2007 was intended to strengthen the current framework for bank supervision. Capital markets are poorly developed.

Protection of investors and property is severely compromised by weak enforcement, a paucity of updated laws to handle modern commercial practices, and a dysfunctional and resource-poor legal system. Litigants are often frustrated by the legal process, and most commercial disputes are settled out of court if at all. Widespread corruption allows disputing parties to purchase favorable outcomes. Despite statutes protecting intellectual property, the weak judiciary and a lack of political will hinder enforcement.

Haiti’s relatively restrictive labor regulations hinder employment and productivity growth. The non-salary cost of employing a worker is moderate, but dismissing a redundant employee is relatively costly. Restrictions on the number of work hours are not flexible.

Às sombras

Ricardo Gondim mais uma vez vivendo às sombras dos Estados Unidos da América. Não percebe que se submete à frivolidade de atrelar a desgraça do Haiti às suas paixões socialistas e de perspectivas meramente políticas. Cita o materialismo, este que não doa aos oprimidos o patrimônio oriundo de suas ovelhas cativas.

Ariovaldo Ramos não difere de Paulo Freire

A palavra esquerdista não faz mais sentido, nos dias correntes. Eu sou progressista!”, mugiu Ariovaldo Ramos. Utilizando-se das adjetivações e contrárias a todas elas, o ativista tenta se esquivar de qualquer pensamento que lhe ampare em responsabilidades conceituais e ideológicas. Não é liberal, ecumênico, extrema direita, sequer esquerdista; é, afirma, um “progressista”. Pelo progresso, entretanto, abraça amorosamente todas as idealizações que envolvem o Estado e seu poder assistencialista.

Esperto foi o homem, que em cima do muro agora profetiza suas tendências às águas e vinhos, aos direitos e esquerdos, faceta comumente utilizada por aqueles que não desejam a bajulação de uma ramificação específica da política coletivista.

Separemos, portanto, os individualistas e coletivistas, e não haverá muro a Ariovaldo que sustente o peso de uma adjetivação clara e obviamente constrangedora. Se o ativista quer se imaginar além do bem e do mal, observando a todos sobre o pedestal que anula qualquer caracterização de seu personagem, deve antes assumir sua condição de subjugação aos próprios atos: e por eles, Ariovaldo Ramos não difere de Paulo Freire.