O retraimento de todos os deuses

A despeito da importância antropológica da Bíblia, houve, nos dois últimos séculos, um claro processo de “abandono” da leitura dos textos bíblicos. Como o senhor vê esse processo e quais as razões para que ele ocorra?

Hoje se publicam mais livros sobre a Bíblia do que nunca, mas o que assinalam é verdade: a Bíblia nunca esteve tão pouco presente em nossa história. É preciso ver tal situação de uma perspectiva nietzscheana-heideggeriana: “o retraimento de Deus”. Acho que a expressão heideggeriana “o retraimento de Deus” é na verdade antinietzscheana, já que a “morte de Deus” é ainda muito cristã para ele. Afinal, o Deus que morre é Cristo. E uma vez que Deus morre, a idéia de ressurreição tem de vir logo em seguida: como vimos, é o que acontece no aforismo 125 de A gaia ciência, um dos textos mais impressionantes de Nietzsche, no qual ele consegue dizer coisas que vão além de sua própria indagação. A morte de Deus e a pergunta acerca de como podemos oferecer reparação por essa morte levaram Nietzsche à idéia do assassinato fundador. A noção heideggeriana de retraimento dos deuses constitui um esforço para negar a primazia do Deus bíblico ainda presente na fórmula nietzscheana. A fórmula proposta por Heidegger significa que a religião em geral está perdendo espaço, não só o Deus cristão; o que é verdade. A antiga ordem sacrificial pagã está desaparecendo por causa do Cristianismo! Este parece estar morrendo com as religiões que faz perecer, visto ser considerado apenas mais uma religião mítica em termos sacrificiais. O Cristianismo não é apenas uma das religiões destruídas, é o agente dessa destruição. A morte de Deus é, em todos os sentidos, um fenômeno cristão. O ateísmo moderno corresponde a uma invenção cristã. Inexiste ateísmo no mundo antigo, excetuando-se o epicurismo, que era limitado e cuja negação dos deuses não era particularmente incisiva, beligerante. Não negava Deus contra alguma coisa ou alguém, não exibindo o forte caráter negativo do ateísmo moderno.

O desaparecimento da religião é um fenômeno cristão por excelência, pois. Quando falo de desaparecimento, refiro-me à religião como algo que associamos à ordem sacrificial. E a religião assim entendida continuará a desaparecer em todo o mundo. Conversei com um estudioso de sânscrito a esse respeito: tal processo também está ocorrendo na Índia e, embora bem mais lento por lá, vem acelerando-se. O retraimento de todos os deuses é o primeiro fenômeno transreligioso. Outro fenômeno dessa magnitude que estamos presenciando sem nos darmos conta é o fundamentalismo. E é interessante observar que os fundamentalistas não tomam conhecimento dos fundamentalistas de outras religiões. São inteiramente autocentrados, interessando-se apenas pelo seu próprio fundamentalismo e lutando pela extinção de outras formas de religião. Por exemplo, parece-nos inconcebível uma Internacional fundamentalista, embora possamos imaginar uma ateísta. Mas, a meu ver, ambos são aspectos da mesma destruição da religião, destruição essa que é essencialmente uma decorrência do Cristianismo, pelo fato de desacreditar o sacrifício. Sem acreditarmos em sua eficácia, este não pode existir. Graças ao Cristianismo, não mais acreditamos.

René Girard em Um longo argumento do princípio ao fim