Faremos com os jovens

Com quem faremos a revolução? A revolução – respondia – a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas.

Robert Arlt em Os Lança-Chamas

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Sob o crivo do hipotético

Já lhes foi dito que o ativismo incumbe a depreciação da intelectualidade, tal como a evidenciação dos instintos animalescos do homem: identifica-se, claramente, pelas vias ativistas, certa tendência à catástrofe como ultima ratio da idéia que não forjada nos alicerces da razoabilidade teórica. Contudo, aos ingênuos e apaixonados pela balbúrdia, pelos quais o evangelicalismo se molda, ativismo significa a convicção faltante aos pensadores, e como tais, imagina-se, seres inertes à realidade.

Se o jovem Raskólnikov ditou a seus indagadores que o trabalho a ele pertinente era o mero pensar, intriga ao ativista ser o pensamento a faculdade inerente de seu oposto, o filósofo, aquele que se deleita nas idéias e não confunde seus instintos doutrinários com a exploração de certa causa. Paralelamente aos cristãos que se dizem predispostos à piedade suprema, tem-se, recostados no ardor do protocolo salvacionista, o sujeito ambiental no qual se observa mesma ingenuidade.

Há quem afirme ser o fardo e legado de Platão, pela idéia da utopia como inerentemente realística, o fardo dos sonhadores que, em natural quimera de seus ímpetos, agem ativamente sob o alicerce da Esperança, cuja forma e caráter suprimem a realidade, ou, conforme a tese estritamente cética, o objetivismo de Ayn Rand. Havendo critérios e espaço à ingenuidade, tal prevalece por completa ausência filosófica, larga vereda confortável à maioria regulada pelas pretensões do irrealizável. As teses submetidas sob o crivo do hipotético e idealismo, estas convergem à decadência do intelecto, evidente constatação da gênese do definhamento teológico, quando a sistemática de estudo se entrelaça aos devaneios do orientalismo.

Os ímpetos de sua fragilidade

Se Paulo demonstrou-se claramente humano e, portanto, necessariamente submetido às fraquezas da consciência, Pedro subjugou-se à armadilha da convicção decisivamente sobre-humana, porquanto, em mesma consciência, negou forçosamente os ímpetos de sua fragilidade para ser posteriormente rechaçado pelo Mestre. Eis o abismo entre Paulo e Pedro, este que, nos evangelhos, não encontrara o alicerce intelectual à sua tese e persuasão, tal como, ausente de preexistentes amparos filosóficos, professou o ativismo inevitavelmente imaturo.

O mesmo ativismo paulino – contudo fundamentado em filosofia – não expressou imaturidade, apesar da impulsividade argumentativa encontrável na letra da carta a Tito: tapeis suas bocas, porque ensinam o que não convém, conseqüência visível da ingenuidade daquele que aconselha. A conveniência de Paulo era a adequação às suas palavras, e conveniente a Pedro era externar as pretensões inabaláveis do servo ideal, a fé que não titubeia, recebendo a justa repreensão daquele que antecedeu as epístolas e evangelhos.

Memórias do subsolo

Um dos livros que melhor ilustram as questões que apresentei nos textos anteriores é Memórias do subsolo, de Dostoievski. Agora, é importante ter em mente o seguinte: Dostoievski apresenta o esplendor da mesquinharia de seu narrador como recurso poético, porque sem ele, curiosamente, não conseguiríamos ler o livro. Qualquer pessoa que se depare com “Sou um homem doente… Um homem mau” pensa logo: “esse não sou eu”. Por isso vemos o narrador-protagonista de Memórias do subsolo como um outro, e muitos críticos ainda falam da densidade filosófica da obra. Cuidado. Isso tudo são cortinas de fumaça usadas para tornar palatável a verdade impalatável: numa certa medida, nós, exceto os santos, somos o personagem de Memórias do subsolo.

Quando eu falo em “certa medida”, não estou me referindo a algo incerto. A medida certa é a medida em que pretendemos afirmar nossa autonomia a qualquer custo e encontrar uma espécie de autofundamento do eu, como se pudéssemos criar a nós mesmos, dar a nós mesmos a nossa identidade, estimar a nós mesmos como se não houvesse nada em torno — e como seria possível estimar o valor de alguma coisa sem compará-la a outra? A insistência mesma em ser “especial” é apenas uma maneira elegante de dizer que alguém (você mesmo, normalmente) é melhor do que os outros. E então, quando as pessoas se deparam com alguém cuja vaidade é ainda maior, mais estudada, mais eficaz, e são afetados por alguém que elas não conseguem afetar, dizem: ele é vaidoso, ele é arrogante, ele se acha melhor do que todo mundo etc.

Veja no trecho abaixo quantas estratégias o narrador e o autor usam para diferenciar-se e criar uma dissonância cognitiva*. Você quer ouvir o relato de um homem doente e mau? Não. Mas como se trata de um livro publicado, o prestígio faz com que você siga adiante. Depois, o narrador se diferencia dos médicos; ele simplesmente os recusa, mas também mostra que está plantado na realidade, e que sua vontade de continuar doente é inflexível, isto é, não é afetada por ninguém, nem pelos médicos.

Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais. (p. 15)

No trecho abaixo, o narrador discute com o utilitarismo inglês, e a idéia econômica de que as pessoas querem maximizar sua satisfação (ou, como dizem os economistas, a utilidade marginal). Querem as pessoas ser felizes? Não: elas querem é mostrar-se independentes. Querem sentir que dão o fundamento à própria vida.

Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura — tudo isso constitui aquela vantagem das vantagens que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos! E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade… (p. 39)

Como agora só gostaria de estimular o leitor aqui do site a ler o pequenino romance de Dostoievski, e voltar aos meus inúmeros afazeres, deixo apenas mais uma nota, porque é muito importante. Nessas divagações todas a respeito de auto-imagem, auto-estima à luz da teoria mimética de René Girard, em nenhum momento eu (nem Girard) pretendo sugerir que as coisas tenham de ser necessariamente assim. De fato, eu não acho possível, nem metafisicamente, encontrar um autofundamento para o eu, mas isso não quer dizer que a infelicidade é obrigatória. Ela é obrigatória apenas para quem insistir até o fim da vida na vã tentativa de fingir que não está se comparando a ninguém, que só olha para si mesmo, e que nunca fez nada de tão grave assim. Enquanto você achar que pode sim atirar a primeira (ou a segunda, ou a centésima segunda) pedra, e que, na história da Paixão de Cristo, você está mais perto do crucificado do que do crucificador, realmente a infelicidade é obrigatória. Mas você pode renunciar a isso tudo a qualquer momento. Pode admitir que compete quando acha que não compete, pode parar de pensar que só os outros são violentos, pode parar de desejar a afirmação da própria independência de tudo e de todos, e pode, por fim, tirar você mesmo do centro das suas atenções. Não faz muito tempo que dedicar-se aos outros era considerada uma definição bastante incontroversa de amor. Se você prefere acreditar em Hollywood, bem vindo ao subsolo.

Pedro Sette-Câmara

Não ouça este sofista

Basta verificar se a lei tira de algumas pessoas aquilo que lhes pertence e dá a outras o que nao lhes pertence. É preciso ver se a lei beneficia um cidadão em detrimento dos demais, fazendo o que aquele cidadão nao faria sem cometer crime. Deve-se, então, revogar esta lei o mais depressa possível; visto não ser ela somente uma iniqüidade, mas fonte fecunda de iniqüidade, pois provoca represálias. Se essa lei—que deve ser um caso isolado — não for revogada imediatamente, ela se difundirá, multiplicará e se tornará sistemática. Sem dúvida, aquele que se beneficia com essa lei gritará alto e forte. Invocará os direitos adquiridos. Dirá que o Estado deve proteger e encorajar sua indústria particular e alegará que é importante que o Estado o enriqueça, porque, sendo rico, gastará mais e poderá pagar maiores salários ao trabalhador pobre. Não ouça este sofista. A aceitação desses argumentos trará a espoliação legal para dentro de todo o sistema.

Frédéric Bastiat

Quando submetida ao crivo filosófico

A exclusividade inegociável à literatura abraça-se nos contornos da teologia, se desta se considera a Bíblia e seus relatos como necessariamente literários. É por tal concepção que, ao visualizar as cartas paulinas como aquelas escritas pelos anseios de um homem, as narrativas se constroem pela futilidade humana e as incapacidades do pensamento meramente impositivo, mandatário, que não fundamente razões pertinentes ao exposto.

O descrédito de Paulo na contemporaneidade, ao tempo em que é ovacionado pela tese da Graça Divina, demonstra que os pontos concernentes de uma filosofia teológica também respaldam o entendimento da futilidade dos reformadores subjugados a Calvino, por exemplo, ou a insistência anti-semita de Lutero.

O homem Paulo estaria por expor sua tese em mesma fragilidade do comendador apto a transmutar o significado da Cruz, resultante na simplicidade evidente e inafastável da teologia de Cristo. Porém tal adição à mensagem do Nazareno demonstrou-se claramente aceitável, senão necessária: inegável que às palavras de Paulo há intelectualidade e persistência filosófica.

Se estas duas facetas da evolução da mente – intelecto e filosofia – surgem nos textos bíblicos como naturalmente deturpadores de eventual simplicidade, é por elas que se chega ao âmago da própria Mensagem, teorizada além do essencial, mas não menos pertinente.

Argumenta-se aos derredores dos templos a complexidade da teologia, quando submetida ao crivo filosófico, e o retorno premente à simplicidade exegética das palavras cristãs. Que se faça a medida e peso aos escritos de Paulo de Tarso.