Pensaremos na felicidade universal

Tínhamos razão de agir assim, dizê-mo? Não era amar a humanidade compreender sua fraqueza, aliviar seu fardo com amor, tolerar mesmo o pecado à sua fraca natureza, contanto que fosse com nossa permissão? Por que então vir entravar nossa obra? Por que guardas tu o silêncio, fixando-me com teu olhar penetrante e terno?

É preferível que te zangues, não quero o teu amor, porque eu mesmo não te amo. Por que haveria eu de dissimular isto? Sei a quem falo, tu conheces o que tenho a dizer-te, vejo-o nos teus olhos. Cabe a mim esconder-te nosso segredo? Talvez o queiras ouvir de minha boca. Ei-lo: não estamos contigo, mas com ele, desde muito tempo já. Há justamente oito séculos que recebemos dele esse derradeiro dom que tu repeliste com indignação, quando ele te mostrava todos os reinos da terra; aceitamos Roma e o gládio de César e declaramo-nos os únicos reis da terra, se bem que até agora não tenhamos tido ainda tempo de completar nossa obra.

Mas de quem a culpa? Oh! o negócio está apenas começado, bem longe de ser completado, e a terra terá de sofrer ainda muito, mas atingiremos nosso fim, seremos césares e então pensaremos na felicidade universal.

_________________________________________________
O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski
  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
  3. Um sorriso de compaixão infinita
  4. O cardeal, grande inquisidor
  5. O pior dos heréticos
  6. A sonhada liberdade
  7. O futuro estava velado
  8. Exige deles que sejam virtuosos
  9. Diremos que somos teus discípulos
  10. Embora cercado de montes de pão
  11. E inundarão a terra de sangue
  12. Baseando-se no milagre, no mistério, na autoridade