E inundarão a terra de sangue

Preparaste assim a ruína de teu reino. Não acuses ninguém. Entretanto, era isso que te propunham? Há três forças, as únicas que possam subjugar para sempre a consciência desses fracos revoltados, a saber: o milagre, o mistério, a autoridade! Tu rejeitaste todas as três, dando assim um exemplo. O espírito terrível e profundo havia-te transportado ao pináculo e havia-te dito: ‘Queres saber se és o filho de Deus? Lança-te daqui abaixo, porque está escrito que os anjos o sustentarão e o carregarão, e ele não sofrerá nenhum ferimento.

Saberás então se és o filho de Deus e provarás assim tua fé em teu pai’. Mas repeliste esta proposta, não te precipitaste. Mostraste então uma altivez sublime, divina, mas os homens, raça fraca e revoltada, não são deuses! Sabias que, dando um passo, um gesto para te precipitares, terias tentado o Senhor e perdido a fé nele, ter-te-ias rebentado sobre aquela terra que vinhas salvar, para grande alegria do tentador. Mas há muitos como tu? Podes admitir um instante que os homens teriam a força de suportar semelhante tentação? É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, diante das questões capitais e dolorosas, agarrar-se à livre decisão do coração? Oh! Tu sabias que tua firmeza seria relatada nas Escrituras, atravessaria as idades e iria até as regiões mais longínquas, e esperavas que, seguindo teu exemplo, o homem se contentaria com Deus, sem recorrer ao milagre.

Mas ignoravas que o homem rejeita Deus ao mesmo tempo que o milagre, porque é sobretudo o milagre que ele procura. E, como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios, inclinar-se-á diante dos prodígios de um mágico, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que seja um revoltado, um herege, um ímpio confesso. Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: ‘Desce da cruz e creremos em ti’.

Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejavas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso. Tinhas necessidade de um livre amor e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí ainda, fazias idéia demasiado alta dos homens, porque são escravos, se bem que tenham sido criados rebeldes. Vê e julga, após quinze séculos decorridos: quem elevaste até a ti? Juro-o, o homem é mais fraco e mais vil do que o pensavas. Pode ele, pode ele realizar o mesmo que tu? A grande estima que tinhas por ele fez mal à compaixão.

Exigiste demasiado dele. Tu, no entanto, que o amavas mais do que a ti mesmo! Estimando-o menos, ter-lhe-ias imposto um fardo mais leve, mas em relação com teu amor. Ele é fraco e covarde. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É o orgulho de jovens escolares que se amotinaram em aula e expulsaram seu mestre. Mas a alegria dos garotos terá fim e lhes custará caro. Derrubarão os templos e inundarão a terra de sangue.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski
  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
  3. Um sorriso de compaixão infinita
  4. O cardeal, grande inquisidor
  5. O pior dos heréticos
  6. A sonhada liberdade
  7. O futuro estava velado
  8. Exige deles que sejam virtuosos
  9. Diremos que somos teus discípulos
  10. Embora cercado de montes de pão