Segue o piedoso cativando

“Quanto mais dirigidos são os homens pela propaganda ideológica, política ou comercial, tanto mais são objetos e massas”. Paulo Freire quer me dizer que o dirigismo é uma característica antagônica às suas raízes; e, conquanto destituído de ideologia, livre da coisificação, jaz na elucidação dos homens que não acossam personalidades.

Segue o piedoso cativando os caminhos da ironia portuguesa?

Baseando-a no milagre, no mistério, na autoridade

Mas perceberão por fim, essas crianças estúpidas, que são apenas fracos revoltosos, incapazes de revoltar-se por muito tempo. Derramarão lágrimas bobas e compreenderão que o Criador, fazendo-os rebeldes, quis zombar deles, certamente. Gritarão contra ele com desespero e essa blasfêmia torná-los-á ainda mais infelizes, porque a natureza humana não tolera a blasfêmia e acaba sempre por tirar vingança dela. Assim, a inquietação, a perturbação, a desgraça, tal a partilha dos homens, após os sofrimentos que suportaste pela liberdade deles.

Teu eminente profeta diz, na sua visão simbólica, que viu todos os participantes da primeira ressurreição e que havia 12.000 para cada tribo. Para serem tão numerosos, deveriam ser mais que homens, quase deuses.

Suportaram tua cruz e a existência no deserto, nutrindo-se de gafanhotos e de raízes; decerto, podes orgulhar-te desses filhos da liberdade, do livre amor, de seu sublime sacrifício em teu nome. Mas, lembra-te, não eram eles senão alguns milhares e quase deuses, e o resto? É falta deles, dos outros, dos fracos humanos, se não puderam suportar o que suportam os fortes? É culpada a alma fraca por não poder conter dons tão terríveis?

Vieste na verdade apenas para os eleitos? Então, é um mistério, incompreensível para nós, e teremos o direito de pregá-lo aos homens, de ensinar que não é a livre decisão dos corações nem o amor que importam, mas o mistério, ao qual devem eles submeter-se cegamente, mesmo malgrado sua consciência. É o que temos feito.

Corrigimos tua obra baseando-a no milagre, no mistério, na autoridade. E os homens regozijaram-se por ser de novo levados como um rebanho e libertados daquele dom funesto que lhes causava tais tormentos.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski
  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
  3. Um sorriso de compaixão infinita
  4. O cardeal, grande inquisidor
  5. O pior dos heréticos
  6. A sonhada liberdade
  7. O futuro estava velado
  8. Exige deles que sejam virtuosos
  9. Diremos que somos teus discípulos
  10. Embora cercado de montes de pão
  11. E inundarão a terra de sangue

Pela desconstrução de teses alheias

A mente que justifica Armínio, antes, predisposta à sã batalha, inevitavelmente afirma a inviabilidade do pensamento determinista. Ora, o que me instiga a fragilidade dos tais, pois que sustentados pela desconstrução de teses alheias, e portanto essencialmente dependentes destas. Seria o anticalvinismo a gênese da decadência teológica?

Aristóteles prevaleceu sobre Platão

Autores dos mais diversificados pecam na atribuição do comunismo os conceitos inerentes ao bolchevismo do século XIX, quando, em verdade, o igualitarismo coercitivo das propriedades sucumbe às teses do homem se  limitado às restritas perspectivas territoriais; perspectivas de opressividade, leia-se. Se Richard Pipes declara que Aristóteles, teórico da gênese patrimonialista, prevaleceu sobre Platão, quando este trouxe para si, inevitavelmente, a teorização da irresponsabilidade metafísica e a mutabilidade constante de percepção da realidade, a filosofia naturalista do homem naturalmente igualitário emerge belamente na intelectualidade contemporânea, contudo atrelada aos devaneios do relativismo filosófico.

Ora, mas o relativismo difere da irresponsabilidade intelectual: aquele, concepção filosófica de simplificação de aparentes complexidades para que, posteriormente, engrandeçam-se os pontos discutíveis e plausíveis ao usuário; aquela, delimitação da precariedade intelectual, suas mentes são inconstantes, não enveredam a caminho algum, e, porquanto de fácil aceitação e de exaltação intrínseca dos mistérios do entendimento, largamente aproveitada no meio teológico acolhido pelas falácias dos mistérios e acervos crescentes de louvor aos atos animalescos.

E inundarão a terra de sangue

Preparaste assim a ruína de teu reino. Não acuses ninguém. Entretanto, era isso que te propunham? Há três forças, as únicas que possam subjugar para sempre a consciência desses fracos revoltados, a saber: o milagre, o mistério, a autoridade! Tu rejeitaste todas as três, dando assim um exemplo. O espírito terrível e profundo havia-te transportado ao pináculo e havia-te dito: ‘Queres saber se és o filho de Deus? Lança-te daqui abaixo, porque está escrito que os anjos o sustentarão e o carregarão, e ele não sofrerá nenhum ferimento.

Saberás então se és o filho de Deus e provarás assim tua fé em teu pai’. Mas repeliste esta proposta, não te precipitaste. Mostraste então uma altivez sublime, divina, mas os homens, raça fraca e revoltada, não são deuses! Sabias que, dando um passo, um gesto para te precipitares, terias tentado o Senhor e perdido a fé nele, ter-te-ias rebentado sobre aquela terra que vinhas salvar, para grande alegria do tentador. Mas há muitos como tu? Podes admitir um instante que os homens teriam a força de suportar semelhante tentação? É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos graves da vida, diante das questões capitais e dolorosas, agarrar-se à livre decisão do coração? Oh! Tu sabias que tua firmeza seria relatada nas Escrituras, atravessaria as idades e iria até as regiões mais longínquas, e esperavas que, seguindo teu exemplo, o homem se contentaria com Deus, sem recorrer ao milagre.

Mas ignoravas que o homem rejeita Deus ao mesmo tempo que o milagre, porque é sobretudo o milagre que ele procura. E, como não saberia passar sem ele, forja novos, os seus próprios, inclinar-se-á diante dos prodígios de um mágico, dos sortilégios de uma feiticeira, ainda que seja um revoltado, um herege, um ímpio confesso. Tu não desceste da cruz, quando zombavam de ti e gritavam-te, por derrisão: ‘Desce da cruz e creremos em ti’.

Não o fizeste, porque de novo não quiseste sujeitar o homem por meio de um milagre. Desejavas uma fé livre e não inspirada pelo maravilhoso. Tinhas necessidade de um livre amor e não dos transportes servis dum escravo aterrorizado. Aí ainda, fazias idéia demasiado alta dos homens, porque são escravos, se bem que tenham sido criados rebeldes. Vê e julga, após quinze séculos decorridos: quem elevaste até a ti? Juro-o, o homem é mais fraco e mais vil do que o pensavas. Pode ele, pode ele realizar o mesmo que tu? A grande estima que tinhas por ele fez mal à compaixão.

Exigiste demasiado dele. Tu, no entanto, que o amavas mais do que a ti mesmo! Estimando-o menos, ter-lhe-ias imposto um fardo mais leve, mas em relação com teu amor. Ele é fraco e covarde. Que importa que no presente se insurja por toda parte contra nossa autoridade e se mostre orgulhoso de sua revolta? É o orgulho de jovens escolares que se amotinaram em aula e expulsaram seu mestre. Mas a alegria dos garotos terá fim e lhes custará caro. Derrubarão os templos e inundarão a terra de sangue.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski
  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
  3. Um sorriso de compaixão infinita
  4. O cardeal, grande inquisidor
  5. O pior dos heréticos
  6. A sonhada liberdade
  7. O futuro estava velado
  8. Exige deles que sejam virtuosos
  9. Diremos que somos teus discípulos
  10. Embora cercado de montes de pão

A argumentação do verdadeiro sentido

A verdade em seu sentido absoluto trafega pelos rumores do coração autopiedoso, tal como o anseio do homem convicto ao totalitarismo investigativo, porque – reverbera-se nas cadeiras do relativo – a indiscutível Verdade enrijece o pensador em seus pressupostos previsíveis. Tais raras figuras, denominados liberais por aqueles que amam a tese calvinista, fincaram os anseios ao absoluto no desvendo de abismos mais profundos, quando na literatura é lançada a argumentação do verdadeiro sentido.

Pois que realmente cativa o sentido existencial da humanidade, dificilmente haverá a assumição de que o verdadeiro sentido é a absolutização da Verdade amparada pelos esforços dos nominais oprimidos, assim catalogados quando, no decorrer de suas existências, progridem à decadência pessoal pelos descabidos esforços à desgraça, atualmente louváveis por meio da condenação intrínseca do imoral dominador, frente à justificativa do subjugado santo.

Louva-se a ociosidade improdutiva dos vícios, e o perverso legitimado pelos transtornos da infância; perpetua-se a vinculação do Amor divino aos… sentidos.