O casebre do sofrimento

A mão que outrora acariciava sua face é aquela que jaz adormecida em purulento lamaçal, infestado pela cor púrpura da vida, inevitavelmente recostada ao peito em poética encenação de tétricas constatações, cujo indivíduo não mais se reconhecia. E as lágrimas da bela moça escorriam deslizando lentamente pelas falhas da pele, oriundas das navalhas de 19 de outubro, no casebre do sofrimento onde seu amante prometera eterna presença, descumprida agora pela soturna visualização desfigurada como tal é a repulsa dos transeuntes que apressados observam o varão, ainda vestido da fina seda anteriormente ofertada pelo galante barganhador. Mas que dele ressurgiu ao semblante aquilo deveras vislumbrado, pois que resguardou intacto o estigma do beijo de sua amada na fissura dos lábios decaídos, que de lembrança última lágrima sucumbiu dela ao encontro das vestimentas; e deixou-o reclinado na solitude do anoitecer à espera da sangrenta lua avermelhada para não mais o ver, porém tê-lo à memória as últimas palavras por ele sussurradas: “enfim… próximo de ti…”.