O conforto promovido pelo labor alheio

Os primitivos indígenas hão de se submeter à Lei em sua manifestação cultural quanto ao homicídio deliberado de crianças. Mas o mesmo não ocorre na livre iniciativa em suas terras não mais cultiváveis, pois que perderam o conhecimento da sustentabilidade em favor da comodidade ocidental, prostrando-se a reivindicações ditadas pelos movimentos da ociosidade rural, pedintes das verbas estatais.

Estaria o ocidentalismo consumindo os tais?, perguntam incautos os amantes da primitividade.

Há culturas que prevalecem sobre o indivíduo desprovido de civilização, ainda que na civilização estejamos imersos nas petições de minorias enfadadas pelas benesses do capitalismo, porém insistentemente dignas de se dizerem enfastiadas do conforto promovido pelo labor alheio.

Se calado no recôndito do alojamento

Se a religião proporciona ao homem o apego às coisas que se fazem abstratas, o cristianismo não subsiste alheio à mentalidade solitária, discordante do coletivo, quando do indivíduo exala a pessoalidade da relação entre o crédulo e o Mestre. Distinguir os atestados do ativismo divino fortalece os necessários abismos que circundam a espiritualidade; dependente das relações comunitárias, tão somente soçobra aos braços da confissão alheia, ditada aos que ali permeiam e alicerçam a imaturidade.

Mas o prematuro observa além dos limites da teorização: quão belo é o convicto que imaturo subsumi aconchegado pelos mistérios do Espírito, recordam-me.

As mãos que apalpadas pelo próximo nas circunstâncias da prece transpiram os odores da comodidade à fé, se esta encontra-se escorada nas quadrelas da faceta pusilânime da Crença. Necessários são os recados do divino, ainda que divinamente sejamos inspirados pelo sopro de Deus na reclusão quando não há palavras de fraquejadas bocas ansiosamente opinativas. Porém enxerga-se aquele que, posteriormente às mãos transpirantes, testemunha do certo acontecido e prolata Deus e seus preceitos; se calado no recôndito do alojamento o imaturo inútil seria.

A valorização primordial da propriedade

O conceito de ganância atrelada à propriedade remonta às teses helênicas e, conjuntamente, à argumentação filosófica do naturalismo em sua essência fundamental: a igualdade precede a propriedade, diz-se. Richard Pipes já nos avisa que o conceito patrimonialista está atrelado ao desenvolvimento da sociedade como civilização constituída, se propriedade é o termo utilizado a toda e qualquer faculdade individual em sua livre aquisição e transação, seja intelectual, seja de facto; a civilização desenvolve-se a partir do conceito de liberdade, que culmina invariavelmente à destituição do Estado como gerenciador das relações privadas.

Diz Pipes que a liberdade não inclui o suposto direito à segurança pública e ao sustento (tal como é sugerido nos slogans liberdade de necessidade e o direito à residência), o que infringe o direito dos demais cidadãos, uma vez que são eles que terão que pagar por tais direitos. Estes são, na melhor das hipóteses, uma reivindicação moral, e na pior, se reforçados pela autoridade pública, um privilégio não merecido.

Platão em sua visualização limitada de civilização, em nome de Sócrates, proclamou a sociedade ideal, posteriormente rechaçado em Política, de Aristóteles. Este, refutando o igualitarismo proprietário, ressalta: as posses permitem que o homem ascenda a um nível ético superior, dando a eles a oportunidade de serem generosos. A liberdade consiste no uso que é dado à propriedade.

Inicia-se a derivação da Caridade, a partir da “filosofia da generosidade” aristotélica, concepção que veio a alicerçar os preceitos cristãos da Idade Média, tal qual a prevalência da Reforma como a exaltação do indivíduo em face do coletivo. Interessante, contudo, a tese do filósofo russo Vladimir Soloviev à caridade cristã, esta que subentendia a valorização primordial da propriedade para que, conseguinte à ética e amorosidade, seja repartida aos demais o essencial à existência, porquanto não há caridade sem propriedade. E Carlyle, em Medieval Political Theory, acerca dos primeiros teóricos da Igreja, sentencia que a propriedade privada era na verdade mais uma instituição disciplinatória que tencionava refrear e neutralizar a índole viciosa dos homens.

A propriedade privada, como antecedente da liberdade ocidental, instiga o homem inevitavelmente à Responsabilidade.

Instrumento útil do todo

Faz bem a todos ouvir dizer que a sociedade está em via de adaptar a indivíduo às necessidades gerais, e que a felicidade e ao mesmo tempo o sacrifício do indivíduo consiste em sentir-se como um membro e instrumento útil do todo.

Nietzsche em Aurora

A observação do animalesco

Há certa vulnerabilidade na proclamação da cultura subdesenvolvida, pressupondo-se o escalonamento cultural tal como valorativa é a perspicácia apreciativa do indivíduo às artes. Não somente a arte romântica alemã e francesa do século XIX naquilo que é “belo e sublime” – a qual Dostoiévski rechaça em Memórias do Subsolo -, mas a caracterização genérica da cultura religiosa, esta inevitavelmente atrelada às artes contemplativas.

Àquilo que fundamenta a precariedade investigativa é possível a observação do animalesco na espiritualidade cristã, encontrável de fato na mente carismática quando subjugada às manifestações visíveis e observáveis, tal qual manequim dos anseios do indivíduo que naturalmente se adequa às presunções de supremacia espiritual, fazendo-se personalidade contraditória, porquanto alheio às ditas manifestações é simples mortal escravizado pelas dúvidas e intempéries do sofrimento.

A este é lhe dado o potencial de exteriorização dos instintos soberbos da humanidade, visto que destituído de filosofia e intelectualidade consegue ainda se expor alguém de características nobres – se nobreza é demonstrar aos seus irmãos elevado índice à animália. A cultura prima pela reflexão; destiná-la ao abismo da ridicularização é tão somente adiantar o processo do indivíduo que se submete ao escárnio provocativo, diz-se, verdadeiramente espiritual, incauto de proeminência avantajada, que sucumbe o Evangelho aos níveis depreciativos do orientalismo.

Acerca do diploma

O Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe hoje uma boa notícia às pessoas de bom senso. Por oito votos a um, seus ministros decidiram que o diploma de jornalismo não é obrigatório para exercer a profissão. Durante quatro décadas, o Brasil viveu na contramão do mundo civilizado. Em todas as democracias do Ocidente, jornalista é aquele que tira do jornalismo a maior parte de seus proventos. Exceto neste país incrível, onde só podia exercer a profissão quem tinha um papelucho de uma escola de jornalismo.

A lei infame foi parida pela junta de generais que assumiu o poder em 1969, mais conhecida como os Três Patetas. As esquerdas, em geral tão raivosas quando se trata de contestar os atos gestados pelo regime militar, fazem boquinha de siri ante o dispositivo corporativista. Não só faziam boquinha de siri, como defendiam com unhas e dentes a lei da ditadura.

Não por acaso, os velhos comunistas eram – e são até hoje – os mais aguerridos defensores da exigência de diploma. Pau que bate Chico bate Francisco. Reservas de mercado só fortalecem a guilda. Quem sabe faz, quem não sabe ensina. A regulamentação do jornalismo gera milhares de empregos na área acadêmica. Professores que muitas vezes jamais pisaram numa redação de jornal ensinam jornalismo, ganhando para isso muito mais que o jornalista e sem o risco de enfrentar os humores do mercado. Sem falar que os cursos de jornalismo viraram laboratórios de marxismo, onde o aluno era ensinado a manipular notícias para manter sempre viva a falecida luta de classes.

Gilmar Mendes, o ministro relator, lembrou que o decreto-lei 972/69, que regulamenta a profissão, foi instituído no regime militar e tinha clara finalidade de afastar do jornalismo intelectuais contrários ao regime. Ora, intelectuais contrários ao regime é a última coisa que querem os marxistas em seus regimes. A lei dos milicos caiu como uma luva às viúvas do Kremlin. Os sindicatos e associações de jornalistas, todos tomados pelos velhos comunas, sempre defenderam histericamente o privilégio da guilda.

Triste país este nosso. Foi preciso decorrer duas décadas após a queda do Muro, para que o jornalismo se libertasse das amarras de Moscou.

Janer Cristaldo