A ironia ainda se faz presente

Saramago, o democrata amigo de Stalin, afirma: o neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências.

A ironia ainda se faz presente na literatura portuguesa, ora.

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Invulnerável às vicissitudes de mentes rudimentares

Milton Friedman afirma que  “a organização econômica desempenha um papel duplo na promoção de uma sociedade livre. De um lado, a liberdade econômica é parte da liberdade entendida em sentido mais amplo e, portanto, um fim em si próprio. Em segundo lugar, a liberdade econômica é também um instrumento indispensável para a obtenção da liberdade política”. O mesmo autor de Capitalism and Freedom exaspera que o controle dos meios de produção e consumo enseja inevitavelmente a diminuição do indivíduo, visto que o mesmo, a par das figurações do Estado Coletivista, sujeita-se amparado pelo silogismo do interesse comunitário.

Àquilo trazido ao academicismo que se chama Direito Difuso e Coletivo é principiológico do ideário coletivista, expressado em sua manobra jurídica respaldada nas facetas da supressão gradativa do indivíduo – afirmam-na necessária – para que a sociedade, em vista de seus meios, reconheça-se diminuta subjugada ao Estado se a proficiência advém das afirmações restritivas.

O Direito, o pensamento jurídico em seu fundamento filosófico, é contramajoritário, alheio à massificação opinativa, porquanto invulnerável às vicissitudes de mentes rudimentares.

Ora, a História da sociedade completa-se na democracia republicana como exceção, e absolutismo como inevitável regra; isto somente pela tendência da iniciativa individualista, e portanto destituída do coletivo, representar sumamente os alicerces da tese universitária, científica e filosófica; as conseqüências do coletivismo, que é o retorno do  previsível armento amparado estatalmente, coletivo strictu sensu, reafirmo: o regresso à barbárie bolchevique.

A escrita tem seus momentos

A escrita tem seus momentos que se dispersam em gêneros e sentimentos literários. Há em tempo a singeleza de palavras, à realidade pela qual tudo se mostra belo, até mesmo o horrendo; e há a rudeza dos termos impositivos, intolerantes, desconexos da poesia, talvez indicando-me que, de fato, o estado de uma prosa é conseqüência do estado de espírito. O espírito que se mostra afadigado com a convivência, desejoso de se sentar à roda daqueles que reflitam de igual forma, porquanto enfastiante é suportar o eterno retorno do previsível, ainda que previsíveis sejam os atos imprevistos das mentes perturbadas pela convicciosa cristianidade – sabe-se confortável.

Essa interessante relação entre a convicção e o indivíduo religioso culmina nas facetas da deturpação, de tamanha dissimulação humanística, que a convivência me faz inclinar textos aos tais, porque no silêncio me mantenho em prol da dignidade das relações mínimas entre o leitor e o bruto, o rude, o não filosófico, sujeito apreciador das manifestações animalescas do Suposto Espírito.

E veja! Submeto-me novamente a termos intolerantes.

Aquilo que lhes empresta o mais alto valor

A ignorância só degrada a pessoa quando é acompanhada de riqueza. O pobre é limitado por sua pobreza e por suas necessidades; no seu caso o trabalho substitui o saber e ocupa seus pensamentos. Por outro lado, os ricos que são ignorantes vivem apenas para seus prazeres e se parecem ao gado, como podemos notar diariamente. Isto é ainda mais censurável porque não usaram a riqueza e o ócio para aquilo que lhes empresta o mais alto valor.

Arthur Schopenhauer

O prestígio do ócio alimentado

O deputado federal Jackson Barreto (PMDB-SE) é o nome que levará ao Congresso a proposta de Emenda Constitucional que solicita o terceiro mandato ao Metalúrgico. Diz-me Barreto: Estou expressando o que eu sinto no Nordeste. O Nordeste se sente prestigiado, a população se sente cidadã em razão das políticas públicas do governo Lula.

O prestígio do ócio alimentado pelo Estado é o problema que teóricos como Friedman e Hannah Arendt já anunciavam. De fato que a cidadania tupiniquim envolve não somente o labor personalíssimo, mas também o amparo da “política pública”, nome alimentador de outras retóricas, tal qual a argumentação abstrata de “população”, que no discurso do deputado faz-se entender a satisfação do Nordeste caracterizado como a região do assistencialismo.

Mas o Metalúrgico, em sua palestra aos irmãos chineses, argumentou a inviabilidade do terceiro mandato.

É a história se repetindo, como se repetem as falácias da Esperança: o indivíduo nega a pretensão ao terceiro mandato, como aquele que exige o cumprimento da democracia; seu partido, como rival do próprio mestre, reafirma as exigências da população. O mestre segue-os, porquanto – ainda que contrário à sua vontade – deve se submeter às ansiedades de seu lastro, amparado pelo clamor dos assistenciados, à vontade da ociosidade, inércia da cidadania, se cidadão é aquele que contribui à sociedade, conceito desconhecido pelos tais.

Todos os homens ativos

O fruto legítimo, o fruto natural da consciência é a inércia: cruzam-se os braços com conhecimento de causa. Já falei disso. Digo e repito com insistência: todos os homens simples e sinceros, todos os homens ativos, são ativos justamente porque são obtusos e medíocres.

Dostoiévski, em Memórias do Subsolo