Das mais elevadas formas artísticas

A intencionalidade literária faz-se introdução das palavras ao encontro do leitor, quando no mais individualmente deparamos-nos com a inevitabilidade conceitual. Insistindo na liturgia como arte do mais refinado intelectualismo vejo que Ângelo Monteiro me adverte sobre a religião, ensinando-me que a linguagem litúrgica de suas fórmulas dogmáticas, de seus textos, de seus hinos e de suas imagens se reveste sempre das mais elevadas formas artísticas para comunicar sua mensagem entre os homens. Toda vez, portanto, que a arte conhece a decadência, a religião é a primeira a sofrer os mais dolorosos impactos, principalmente em épocas de perigoso racionalismo, como na Grécia do tempo dos sofistas, no Iluminismo da Idade Moderna e no planejamento burocrático das sociedades ocidentais contemporâneas.

Anúncios

Bem no fundo do sonho

Bem no fundo do sonho estão os sonhos. A cada
Noite quero perder-me nas águas obscuras
Que lavam o dia, mas sob essas puras
Águas que nos concedem o penúltimo Nada
Pulsa na hora cinza o obsceno portento.
Pode ser um espelho com meu rosto distinto,
Pode ser a crescente prisão de um labirinto
Ou um jardim. O pesadelo sempre atento.
Seu horror não é deste mundo. Causa inominada
Alcança-me desde ontens de mito e de neblina;
A imagem detestada perdura na retina
A infama a vigília como a sombra infamada.
Por que brota de mim, quando o corpo repousa
E a alma fica só, esta insensata rosa?

Jorge Luis Borges

Mas também às regalias

escrito em 19 de março, 2009

Os franceses de Nicolas Sarkozy esbravejam em pedidos a clemência do Estado para que o mesmo resguarde os empregos dos cidadãos desamparados. Certo que a França, desde metade do século XX, demonstrou-se âmbito progressista e referência à expansão estatal, porquanto sustentador do típico loisirs que ali reina em eficiência ímpar.

Com facilidade tamanha foi-nos dado o desvendar do pano encobridor de tendências interessantes. Tendências que submetem o indivíduo francês a comparações inevitáveis ao indivíduo inglês, não obstante a maturidade destes na visualização do mercado, e o prospecto de observar o ativismo sindical em rudecimento da livre iniciativa e obstáculo à intelectualidade econômica.

________

Leio em 22 de março Nivaldo Cordeiro citar a notícia segundo a qual, expelia os ativistas, a crise não é culpa dos assalariados, mas não podemos dizer o mesmo dos patrões.

Exige-se o assistencialismo formulado pela mente acanhada na inação do labor, fato configurado na cultura francesa tal qual o mérito sob a fineza do belo vinho. Ora, a assistência estatal é confortável, e não tê-la provoca descontentamentos fatídicos; a exigência empregatícia de uma nação que se submete ao ócio estatal vincula-se ao emprego, mas também às regalias.

A sentença de Tobias Barreto

De igual forma que a razão – erigida em ídolo para a explicação de todas as coisas, como entidade ursupadora do antigo Deus teológico – parece se negar como um caminho progressivo do homem para o Absoluto, qual se fora inteiramente independente de sua própria consciência, também a liberdade, colocada como deusa, far-nos-á lembrar sempre a sentença de Tobias Barreto: ‘A razão é a deusa da filosofalha, como a liberdade é a deusa da canalha’.

Ângelo Monteiro

Insurgia a problemática evidente

Dietrich Bonhoeffer, pelo seu envolvimento na Trama de Abwehr, é o nome cujas facetas revolucionárias da cristandade nacional encontraram o devido respaldo ao ativismo, conseqüentemente, a diminuição do pensamento filosófico ancorado na personalidade iconicista, característica essencial de mentes tais. Posteriormente a 1989, e a estagnação da estima marxista no ocidente, valorizou-se como premissa justificada a proclamação de seu nome ao exercício da dissimulação humanista para com os ímpetos da sociedade cristã, não obstante caracterizada pela debilitação litúrgica e sacra deformação artística.

Foi com as sucessivas investigações acerca do fenômeno stalinista que Bonhoeffer, o mesmo nome citado pelos revolucionários, deixou-se abrandar ao lado daqueles que formularam a ínsita tese quanto à similitude entre o sovietismo e nazismo, colocando-os em patamares equivalentes.

Insurgia a problemática evidente.

Esquecendo-se aos poucos do nome que antes era Revolução, restou-lhes a diagramação superficial da tese de Bonhoeffer, como líbero ativista, citado esporadicamente em disparato, porém não mais ponto referencial à causa resplandecente, que quer o marxista convencer olheiros quanto ao seu ardor ao pobre homem, em piedade ímpar, como mensageiros de palavras libertárias, contudo ausente de reflexiva construção universitária e por isso em aparente tendência ao amadorismo iluminista.

A mentalidade esquerdista procura, em desesperado uivo, o Ícone, dentre personagens que constantemente se renovam, porquanto a visualização hipotética da realidade não gera a fixação consentida dos termos filosóficos; sim a proposital irresponsabilidade intelectual, que se mantém inerte em aparente inocência.

A equiparação do sistema extintivo humano soviético à Alemanha de Hitler ensejou o fenecimento da pueril legitimidade ideológica. O que se observa na primeira década do século XXI são reconhecimentos não mais delineados em hipóteses, mas em fatos, invariavelmente selecionando, finalmente, aqueles que assumem o posicionamento titular ao termo “comunista”, tal qual aqueles que se soletram nazistas.

É a gênese de novas concepções.

Cultura espiritual, como centros primários

O risco de um colapso da fé em grau socialmente significativo aumenta na medida em que o Cristianismo penetra inteiramente numa área civilizacional, com o apoio de pressões institucionais, e, ao mesmo tempo, sofre um processo interno de espiritualização, de realização mais plena de sua essência. Quanto mais pessoas são atraídas para a órbita cristã, de modo próprio ou sob pressão, maior será o número daqueles que não possuem a força espiritual exigida para a heróica aventura da alma que é o Cristianismo. A probabilidade da perda da fé aumenta também na medida em que o progresso civilizacional da educação, da alfabetização e do debate intelectual faz com que toda a seriedade do Cristianismo seja compreendida por um número crescente de pessoas. Esses dois processos caracterizam o apogeu da Idade Média. Os pormenores históricos não vêm ao caso; basta mencionar o crescimento das sociedades urbanas, com sua intensa cultura espiritual, como centros primários a partir dos quais o perigo se irradiou a toda a sociedade ocidental.

Eric Voegelin

Falta-lhes o Ocidente

Serão realizadas conferências estaduais e distritais e também plenárias com comunidades tradicionais de indígenas, ciganos, quilombolas e comunidades de terreiro, diz Agência Brasil sobre o lançamento da 2ª Conferência de Igualdade Racial.

Entendível o indígena ser enquadrado como raça; sua primitividade intelectual destoa da modernidade e precipuamente são necessários meios amplos para que os mesmos se familiarizem com a civilização. Porém a interessante alegação cigana de que vislumbram a educação estatal merece leves gracejos: os nômades anseiam serviços incompatíveis com sua natureza. Explicou-se anteriormente a necessidade isolacionalista cigana, porquanto de cultura milenar e destituídos das características evolutivas da mente ocidental. Temos nosso próprio meio de vida, que deve ser respeitado, disseram-nos. São nômades, milenares, e raça.

Lembro-vos leitores que o igualitarismo ampara-se sob a vinculação entre o indivíduo e a mitologia racial. Destituídos da devida elevação em sua piedosa formosura, são necessários meios de se refutar que enquanto humanos tão somente lhes são faltantes cultura, intelectualidade e filosofia.

Em suma, falta-lhes o Ocidente.