Este prisioneiro das numerosas necessidades

Considerando a liberdade como o aumento e a rápida satisfação das necessidades, os homens deformam a sua natureza e fazem nascer em si um número cada vez maior de desejos insensatos e hábitos absurdos. Vive-se apenas para a inveja, a satifação dos instintos e a ostentação. Dar banquetes, viajar, possuir luxuosas carruagens, hierarquia social e criados, considera-se tudo isso uma tal necessidade que, por ela, sacrificam-se a vida, a honra, o amor à humanidade, e até se suicidam quando não podem satisfazê-la.

O mesmo se vê entre os que não são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são, por enquanto, abafadas pela embriaguez. Em breve, porém, em lugar de vinho, vão embebedar-se de sangue. […] Aonde irá este prisioneiro das numerosas necessidades por ele mesmo inventadas? […] O mundo zomba do noviciado, do jejum e da oração, mas só eles encerram o caminho para a verdadeira liberdade: suprimem-se as necessidades supérfluas, doma-se e flagela-se a vontade egoísta e soberba e atinge-se, com a ajuda de Deus, a liberdade do espírito e, com ela, a alegria espiritual.

do irônico Dostoiévski