Realidade interina

Não começa por haver, primeiro, um movimento na realidade interina e, em segundo lugar, um observador humano, quiçá um filósofo, que registre as suas observações do movimento. A realidade da existência, tal como é experimentada no movimento, é uma participação mútua (methexis, metalepsís) do humano e do divino; e os símbolos linguísticos que exprimem o movimento não são inventados por um observador que não participa no movimento; são gerados no próprio acontecimento da participação. O estatuto ontológico dos símbolos é tanto humano como divino.

[…]

O mito não é uma forma simbólica primitiva, exclusiva das sociedades arcaicas e superado progressivamente pela ciência positiva; é, antes, a linguagem em que se articulam as experiências da participação humano-divina na realidade interina.

Eric Voegelin

Prazeres da carne

A safareza do evangelicalismo constrói pérolas eminentes. Atrelar a carne de Paulo à carne carnavalesca é o sintoma proeminente da moléstia que assola os púlpitos: a ausência filosófica de palestrantes para com as obedientes ovelhas, estas que em primígero cajado vislumbram-se pensantes asceticamente justificadas.

Este prisioneiro das numerosas necessidades

Considerando a liberdade como o aumento e a rápida satisfação das necessidades, os homens deformam a sua natureza e fazem nascer em si um número cada vez maior de desejos insensatos e hábitos absurdos. Vive-se apenas para a inveja, a satifação dos instintos e a ostentação. Dar banquetes, viajar, possuir luxuosas carruagens, hierarquia social e criados, considera-se tudo isso uma tal necessidade que, por ela, sacrificam-se a vida, a honra, o amor à humanidade, e até se suicidam quando não podem satisfazê-la.

O mesmo se vê entre os que não são ricos; quanto aos pobres, a insatisfação das necessidades e a inveja são, por enquanto, abafadas pela embriaguez. Em breve, porém, em lugar de vinho, vão embebedar-se de sangue. […] Aonde irá este prisioneiro das numerosas necessidades por ele mesmo inventadas? […] O mundo zomba do noviciado, do jejum e da oração, mas só eles encerram o caminho para a verdadeira liberdade: suprimem-se as necessidades supérfluas, doma-se e flagela-se a vontade egoísta e soberba e atinge-se, com a ajuda de Deus, a liberdade do espírito e, com ela, a alegria espiritual.

do irônico Dostoiévski

O Eclesiástico

Repelia ainda que tão somente observada, e exalava indícios de repugnância. Talvez quisesse ela distância quando não perturbada pelos valiosos frutos; não se sabe, é o enigma: a Árvore e a serpente pareciam sustentar algo no Templo, cuja influência deveras perpetuava os rituais dos ascetas devotos em suas constantes petições. O sábio, que na altivez da percepção atrelou o ritual à Árvore, preza as formas puras da convicção, tidas como essenciais à fé e aos temores do desconhecido, porque tem-na alicerce à credulidade de seus irmãos.

O felpo do Grande Monastério diverge, sabe-se, da pórtica que enrijecida em lastros de aço e chumbo parecem-se fortalezas intransponíveis. Ora, adiante está o Eclesiástico que assentado em mesa e cadeira nobres de rara madeira observa a poesia antes vasculhada pelo sapiente, erigida pelo autor desconhecido mas de formosa escrita.

– Permita-me Santo tuas bênçãos.

– Pois seja. Que queres, tu que vasculhastes os pergaminhos?

– Denunciam-me portanto?

– A seu bem e sanidade. Levanta, réprobo, tua vestimenta.

E foi-se dado o conhecimento do joelho em natural concepção. A intrigante conversa enveredou a assuntos taciturnos e facetários, em peleja evidente de argumentos e dissensões premeditadas.

– E hoje o badalar dos sinos terá meia ressonância, pela tua altivez. Vai-te em minhas bênçãos.

Advertido, foi o sábio caminhar ao encontro da obscura rastejante que vizinha se encontrava. Sozinha e não mais incomodada pelo temor e gemido dos ascetas, mesmo tão somente enrijecida, era imponente nas formas indistintas, e os olhos ameaçadores imóveis penetravam-no em farpas indolores.

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  1. Umbral
  2. A serpente
  3. Vislumbrando os amedrontados

Reconhecer aos outros a mesma importância absoluta

Todos os homens são capazes de conhecer e realizar a verdade, cada qual pode vir a ser um reflexo do conjunto integral absoluto, um órgão consciente, independente, autônomo da vida universal. O resto da natureza também possui a verdade (ou a imagem de Deus), mas imanente na generalidade objetiva, porque permanece ignorada dos entes particulares. É esta verdade que os forma, que actua dentro deles, através deles, como uma força fatal, como alei da sua existência, lei que eles desconhecem, lei a que se submetem involuntariamente. Eles não podem, no seu sentimento e na sua consciência interna, erguer-se para além da existência limitada.

[…]

Dá-se o contrário com a personalidade humana. Esta compreende dentro de si a verdade e não pode ser suprimida por ela; afirma-se, conserva-se e aperfeiçoa-se exatamente quando triunfa a verdade.

O homem começa por se encontrar a si próprio tal como uma partícula isolada do conjunto integral universal; depois, no seu egoísmo, afirma esta existência própria particular, como se para ele fosse inteira e integral, como se ele conseguisse formar-se um todo em si próprio ao isolar-se de tudo, colocando-se, portanto, fora da verdade. O egoísmo, princípio real, fundamental, da vida individual, penetra-a, dirige-a, inteiramente, e determina tudo concretamente. É por esta razão que a consciência teórica da verdade não pode esmagá-lo, nem suprimi-lo. Enquanto a viva força do egoísmo não encontrar no homem outra força viva, oposta à primeira, a consciência da verdade não constituirá mais do que uma iluminação exterior, reflexo de uma luz estrangeira. Se o homem só compreendesse a verdade pela cultura, o vínculo entre a sua individualidade e a verdade não seria interior e indissolúvel; e se o próprio ser ficasse, como o animal, fora da verdade, seria, como este, condenado à ruína, não se conservando mais do que como uma idéia no pensamento do Espírito absoluto.

A verdade que, como uma força viva, se apodera do ser interior da pessoa, e depois a liberta da falsa afirmação de si própria, tem o nome de amor. O amor, entendido como efectiva abolição do egoísmo, constitui a verdadeira justificação da individualidade, a sua salvação real. [É assim que] longe de perder o seu ser individual, encontra-o e torna-o eterno.

A falsidade e o mal do egoísmo não constituem de modo algum no fato de uma pessoa atribuir a si próprio uma importância absoluta e uma dignidade infinita; ao proceder assim, procede ela com razão, porque cada ser humano, sendo um centro independente de forças vivas, capaz de realizar uma perfeição infinita, como ser que pode conter a verdade absoluta na sua consciência e na sua vida, possui por esta qualidade uma importância e uma dignidade absolutas, apresenta algo de absolutamente insubstituível, cujo valor nem sequer pode ser apreciado.

[…]

A mentira fundamental e o mal do egoísmo consistem na injusta recusa de cada homem de reconhecer aos outros a mesma importância absoluta.

Vladimir Soloviev em A Verdade do Amor

Não os gozava com a liberdade

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens. Com ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra e o mar encobre. Pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se arriscar a vida. Ao contrário, o cativeiro é o maior mal que aos homens pode sobrevir. Digo isto, Sancho, porque bem viste o regalo e a ambundância que tivemos neste castelo de que saímos. Em meio daqueles banquetes lautos, daquelas bebidas de neve, parecia-me estar metido nas aperturas da fome, porque não os gozava com a liberdade com que os gozaria se meus fossem. As obrigações de recompensas às mercês e os benefícios recebidos são ataduras que não deixam campear o ânimo livre. Venturoso aquele a quem o céu deu um pedaço de pão, sem lhe ficar a obrigação de agradecê-lo a outro que não o próprio céu!

Miguel de Cervantes