Trapos da desconfiança filosófica

A teologia adequada à filosofia, que deverá conseqüentemente seguir padrões confiáveis de raciocínio, anularia sua performance surrealista para, em seguida,  irremediavelmente se desvencilhar da estática teológica como a devida teologia, passo este destruidor.

Leia-se tal calcificação a formidável aparência de que teologicamente é necessário manter-se intocável os rudimentos teóricos de pensadores que antes formularam filosoficamente suas teses.

Figuras exploráveis, portanto.

Se a teologia anteriormente concebeu-se intrinsecamente humana, pelos devaneios das dores que constantes pensavam em e sobre Deus,  seu enrijecimento perante novas teses trouxe-lhe tão somente a aparência que converge à previsibilidade; a coisa intelectualizada, pensativa acerca do divino, porém subjugada aos trapos da desconfiança filosófica.

O mundo não poderia subsistir

Somente, porém, como concluir essa aliança eterna? Não fecundo a terra, abrindo-lhe o seio; far-me-ei mujique ou pastor? Ando sem saber para onde vou, para a luz radiosa ou para a vergonha infecta. Está nisso a desgraça, porque tudo é enigma neste mundo. Quando me achava mergulhado na mais abjeta degradação (era todo o tempo), sempre reli esses versos a respeito de Ceres e da miséria do homem. Corrigiram-me? Não! Porque sou um Karamázov!

Porque, quando rolo no abismo, é diretamente, de cabeça à frente; agrada-me mesmo cair assim, vejo beleza nessa queda. E do seio da vergonha entôo um hino. Sou maldito, vil e degradado, mas beijo a fímbria da veste em que se envolve o meu Deus; sou a estrada diabólica, mas sou, no entanto, teu filho, Senhor, e te amo, sinto a alegria sem a qual o mundo não poderia subsistir.

A alegria eterna anima
Toda a alma da criação,
Transmite a chama da vida
Na força oculta dos germes;
Foi quem fez surgir a relva,
Transformou o caos em sóis,
Espalhados nos espaços
Longe da vista dos homens.

Tudo quanto na boa Natureza
Respira, dela extrai sua alegria,
Arrasta atrás de si seres e povos;
Foi ela quem nos deu
Amigos na desgraça,
Dos cachos d’uva o suco,
Das Graças a grinalda,
Ao inseto, a luxúria…

E o Anjo, para levar-nos
À presença de Deus.

Mas basta de versos. Deixa-me chorar. Que seja um absurdo de que o mundo inteiro zombe, exceto tu. Eis teus olhos brilhando. Basta de versos. Quero agora falar-te dos “insetos”, daqueles a quem Deus gratificou com a luxúria. Eu mesmo sou um deles e isso se aplica a mim.

Nós, Karamázovi, somos todos assim; esse inseto vive em ti, que és um anjo, e aí suscita tempestades. Porque a sensualidade é uma tempestade e até mesmo algo mais. A beleza é uma coisa terrível e espantosa. Terrível, porque indefinível, e não se pode defini-la porque Deus só criou enigmas.

Os extremos se tocam, as contradições vivem juntas. Sou pouco instruído, irmão, mas tenho pensado muito nessas coisas. Quantos mistérios acabrunham o homem! Penetra-os e volta intacto. Assim a beleza.

Não posso tolerar que um homem de grande coração e de alta inteligência comece pelo ideal da Madona e venha a acabar no de Sodoma. Mas o mais horrível é, trazendo no seu coração o ideal de Sodoma, não repudiar o da Madona, arder por ele como nos seus jovens dias de inocência. Não, o espírito humano é demasiado vasto, gostaria dê restringi-lo. O diabo é quem sabe de tudo. O coração acha beleza até na vergonha, no ideal de Sodoma, que é o da imensa maioria. Conheces esse mistério? É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha.

do irônico Dostoiévski

O prostrado solitário

À primazia da balbúrdia é nos apresentado o consentimento da mente ao esperado, ao óbvio, ao certeiro, de tal forma que se faz natural e simplório afastar Deus da reflexão tão somente solitária, irrevogavelmente humana. A pândega cavala entre os crédulos que assimilam o Livro como a pérola a ser desperdiçada pelo desespero perante o silêncio divino.

A balbúrdia, o reunismo convictuoso, exclui o divino da alma, torna-a escrava da previsibilidade, afasta-a de lágrimas desconexas da realidade, que remete ao homem a impotência de seu controle dos meros fluídos deveras virulentos e intocáveis.

Que seja apontado o destino do desterro, quando dele se percorrer a vereda da humilhação.

O solitário se humilha prostrado ao Mestre, que com plumas e doces palavras aterra por definitivo a desestima do servo, do amante ao Magnífico que imperioso se submete ao homem fraquejante em pusilânime solo.

Serventia e humilhação é o que Jesus Cristo demonstrou arrastando-se aos pés de apóstolos; retirando-se à solidão da precariedade noturna em orações. E lágrimas excurrentes.

O traçado ao Reino nos foi dado, inexistente se adornado em muros e palanques.

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Leia também:

O silêncio do pensamento

Seguidores do Mestre

O ateísmo demonstra-se sóbrio nas concepções iminentes à religião, colocando-se sarcasticamente na posição do espectador que aprecia o teatro das convicções à conseqüente anulação do criticismo; o ateísmo se faz com a crítica. Em vínculos forjados na bajulação da religião como inibidora do desenvolvimento da razão teórica e experimentalista, a ciência porta-se em subjugar a crença aos critérios da própria crença, a religião à mesma religiosidade.

A literatura ateísta nos demonstra que desde céticos a romancistas, de pensadores a meros ativistas, é nos dado o prazer de observar pelos olhos do não religioso as devidas impressões.

Cumpre formalizar que algumas são oriundas de sabedoria constatada e reflexiva, não somente de seu iniciante mestre, porém dos seguidores. A estes o ateísmo presta homenagens interessantes, como que indicando o desenvolvimento necessário que a religião, ainda que tão somente uma forma abastada de reunir conceitos acerca da divindade, pode ensejar ao homem.

Tal não ocorre com o cristianismo, de fato. Sua ridicularização no meio não religioso nos oferece indicações acerca do empecilho.

O cristão contemporâneo tornou-se reprodutor das concepções apostólicas, que tentaram os pilares da teologia incumbir às palavras de Jesus Cristo. Este, que se fez homem e superior aos ideários do próprio homem. Os pilares esbravejantes, quando não assumida a tendência de subjugar os termos de Jesus aos termos da Humanidade, apontaram: as palavras dos apóstolos são as palavras de Jesus Cristo.

Uma afirmação intrigante, e categórica.

Nietzsche joga as cartas na mesa, construindo o argumento devastador de ser Jesus Cristo o primeiro e último cristão nascido. É a visão do não religioso, que observa atentamente os seguidores de seu Mestre.

O manjar dos deuses

As cartas de Paulo resplandecem a inevitável intromissão da moral humana nas tendências divinas, quando estas esclarecidas em palestras dominicais. Não obstante, a segregação sexual – supostamente definida biblicamente – toma formas e trejeitos daqueles que em nome de Deus promovem a delimitação entre o secular e o sacro, que assim iniciam os argumentos contraceptivos dos mais inusitados.

Não somente Paulo, leia-se, mas toda a estrutura que sustenta o argumento da família em sua imaculada conceituação: a família como fundamento da fé cristã que, se excluída, definharia conseqüentemente o evangelho de Jesus Cristo.

Na gênese da contracepção como isolamento do sêmen resguardou-se a idéia da proliferação como mandamento divino, posteriormente expandida na nefasta consecução do “abortismo contraceptivo”. Nada mais natural o estudo do caso pelas rédeas do Vaticano, porém a retórica quando frágil concebe tendências limitadas, que se iniciam em uma premissa digerível em primeiras leituras para serem em seguida expelidas.

O argumento contraceptivo, incumbido também nas mentes cristãs protestantes oriundas da tese de Calvino, resume-se no afunilamento do ideário abortivo à pós-modernidade, ao exemplo do que não se atesta nas periferias dos grandes centros: o simples planejamento familiar – em suma, a escolha numérica da prole – é a futurística abortiva do homem corrompido, que não confia em Deus

Ora, o que era antes sacralização do sêmen, que deveria corresponder às suas finalidades primitivas e iniciais, é hoje demonização na tão somente imaginada descartabilidade, como um manjar dos deuses que se desperdiçado traria a reprovação iminente da Entidade.

O simples planejamento contraceptivo firmou-se como irrevogável abortismo não assumido, de acordo com tais mentes. Vê-se a decadência – mas não completa – do argumento das ambições divinas para agora serem os usuários dessa receita anti-prole enquadrados na tipicidade criminal do aborto assim comumente definido, de tal forma que a interrupção do natural destino do sêmen expelido seja pré-abortivo, porque futuramente inviabilizaria a Sã-Fecundação do manjar divino.

As importâncias à genitália humana e do que dela se faz alcança níveis inesperados. Novamente, aprimorado o medievalismo, importa-se do que dela sai.

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[1] Obviamente que para um conceito diminuto de tal confiança outros se agregaram para o funil assim forjado, concebendo-a como o caráter de ingenuidade premeditada, reconhecida tão somente pela fé representada pelos limiares da credulidade.

Bispo de Roma abraça a causa ambientalista

O bispo de Roma importa-se com o ambientalismo em momentos simbólicos: “salvemos florestas e homossexuais”, prolifera o santo. Ora, o conservador teocrático sinaliza a ecologia do homem, que não pode deformar a Criação Divina. Cita o santo o antinaturalismo homossexual, tese difundida nas entranhas dos seminários católicos como a faceta da decadência humana, portanto, irreparável, cujas formas aleijadas convergem à Imaculada Igreja, esta representada pelo profeta ecológico.

É o criacionismo em sua pura concepção.

O Vaticano lhes deseja um feliz Natal.

O que é a verdade, portanto?

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias.

Nietzsche em Sobre Verdade e Mentira num Sentido Extra-Moral