Revelação

Não acompanho o desespero adolescente daqueles que reivindicam denúncias às instituições cristãs como forma de abrandar uma frustração não assumida. Se de característica menos ortodoxa me distancio dos ditos conservadores, não me aproximo das idéias libertárias que rondam um pietismo fajuto, como se me fizessem acreditar que choram pelos pobres da África tais quais virgens em mosteiros que seguram o sacro terço; irremediavelmente necessitam do oposto, da instituição, para a própria subsistência, visto que o produto da revolução é o descontentamento de fundamentos anteriores.

Por isso, não me é estranho acompanhar esses revolucionários, sequer os afilosofados conservadores convictos, e perceber que anteriormente aos gritos existia a prática do que hoje se condena – os traumas, portanto, são os alicerces dessa empreitada. Citar neopentecostais; ora, o que falar de um povo que não conta até três sem a ajuda dos dedos?

Reconheço que desapontei alguns iniciais leitores que procuravam neste blog um espaço de amorosidade incondicional e reflexões libertárias sobre a fé. Talvez o título de alguma forma ajudou nessa presunção.

Não me peçam, assim, para que fale das atuais tendências de movimentos proféticos, porque em nada eles me interessam. A boiada segue o cheiro do pasto. Deixe-os com seus sinos no pescoço; são conhecidos e fedem ao esterco que defecam. Inertes apenas alimentam a si próprios, como um câncer destruidor que já se conhece em estado terminal.

É o que lhes digo, leitores. Também indico a leitura de A Vida do Espírito, de Hannah Arendt. A fé toma muitas formas nas mãos de magníficos escritores.

As prostitutas valorizadas de Moscou

Demasiado rudes são os meritocráticos, afirmou-se acerca do texto estigmático, como se a argumentação do merecimento resplandecesse a eterna injustiça. As conseqüências à assumição da meritocracia – ao estilo mais competitivo – são claras: em uma sociedade que preza pelo pobretismo, exaltação da ralé e preponderantes resquícios do coitadismo enigmático do mercado reacionário, cabe ao conformado assistenciado afirmar igualitarismo, quase que filosoficamente.

Ora, a correta política em não apontar a cultura obstruída pela intelectualidade primitiva, primária, primata, lulista, esconde dos males a beleza da miséria cultural. Para tal são necessários aparatos diversificadamente tipificados, trazendo o miserável aos rústicos níveis de mártir por uma objetivação primorosa.

Essa conceituação progressista da desgraça humana influencia costumeiramente na continuidade dos devotos ao santo; este, o miserável que deve permanecer em seu papel, porquanto integra a “nobreza da luta libertária”.

É a premissa da práxis esquerdista em prantos como viúvas do comunismo.

E o indivíduo coroado reage com mugidos e dialética nas universidades estatais. A continuidade dessa missão incumbe a perpetuação da honra e sovinice, das lembranças públicas e penúria dignificada, com aparatos festivos e literatura caracterizada.

Como as prostitutas valorizadas de Moscou é a miséria no Brasil exemplificada na argumentação esquerdista. Os santos são fontes de muitos recursos.

Níveis devem ser respeitados

Ghiraldelli notou a infantilidade filosófica em jornalistas como Reinaldo Azevedo (que também gosta de assuntos jurídicos, ao agrado dos leigos). Prestam os polemistas favores interessantes à sociedade, porém quando tocam a tecla da filosofia a nota se finaliza desafinada; utilizam de filosofia como respaldo retórico, tão somente, não se importando com os equívocos, penso, sabidamente ditos.

A facilidade do jornalismo na expressão de idéias resume-se no desapego à responsabilidade semântica dos termos usados, fazendo de seu escopo a essência de um meio informativo expansível a qualquer insciente que se disponha à leitura. Fajutar a filosofia, colocando-a nos patamares jornalísticos, tornou-se comum meio de explanação de uma intelectualidade presumida, conquanto a filosofia no âmbito retórico é alicerce de convicções das mais singulares.

Kant, Foucault, Hegel, Kierkegaard, Nietszche são pérolas raras para serem citados em letras polêmicas. E este último, pérola rara para ser citado em seminários teológicos.

São níveis que devem ser respeitados.

O estigma dos igualitários

Não há raça, afirmavam os igualitaristas, porque pela devida divisão a nostalgia da diferença perpetuaria por sobre a intelectualidade defasada. Mas os argumentos dos igualitários mostraram-se irrisórios, visto que a unidade racial é o preâmbulo da absoluta e literal ausência de distinção. Necessário foi então concretizar a total e subsistente diferenciação, como indivíduos que de fato se encontram em escalas ascendentes perante o estudo pós-moderno.

O argumento do racismo prepondera tendências das mais rústicas, que se abraçam nos cortejos das oportunidades perdidas. É a dita meritocracia, que em terras tupiniquins se tornou sinônimo de injustiça separatista. De fato, os inconsistentes, aqueles que pelo ócio correspondem às expectativas do bairrismo cultural em culturas subalternas, pela qual são reveladas as tendências do animalismo racional, estes não satisfazem os mínimos requisitos de uma sociedade movida aos merecimentos personalíssimos.

Do mito da raça hoje prevalece a evidência do iletrismo. Os aculturados – brancos, negros, pardos, mulatos, morenos, amarelos e outras definições racistas – merecem idênticas passarelas às conquistas intelectuais, por meio de cadeiras definidas a eles nas universidades amontoadas na inutilidade filosófica.

Filosofia somente se faz com letras.

Sobre a retórica da igual oportunidade, desvencilhada do mérito capitalista, concorre o estigma da imbecilidade brasileira.

No homem

Lágrimas pretéritas sucumbiram
às expectativas,
mas o esforço de agradecimentos
não merece a frustração.

Não há consolo algum
nas vertentes do irrealizável,
sequer na confiança do homem
no homem.

Novo mundo, nova petição

Ressaltar constantemente – como redescobridores de raras pérolas – a defesa do Estado na regulação do sistema financeiro, e conseqüentemente na mediação da produção especulativa capitalista, é assumir o lastro do estudo irresponsável, senão mera faceta do populismo exacerbado necessário nas sociedades intelectualmente presumíveis.

Certamente que o berço do capitalismo comete tais equívocos quando tão somente amparado pela política de reafirmação de uma era vindoura, em que o epicentro do mundo convergirá novamente à manjedoura Europa. Porém a observação da sangria capitalista produz teses das mais irrelevantes, como aquela proferida pelo Chefe do Poder Executivo tupiniquim: deve o Estado regular o sistema financeiro.

Tal afirmação cita a obviedade.

Alexander Hamilton não é lembrado nas palestras políticas, porquanto não satisfaz a interessante relação amistosa do Estado quando este se deduz na figura referencial de um indivíduo. Nicolas Sarkozy, presidente da França, aquele que profetiza infantilmente a refundação do capitalismo, não cita o conterrâneo Jean-Baptiste Colbert.

Hamilton diferencia-se de Adam Smith. Enquanto este proclamou “a mão invisível” do mercado, aquele reafirmou a posição do Estado na regulação dos interesses capitalistas. Uma novidade aos revolucionários se o entendimento de toda a regulação capitalista fosse dado justamente a Hamilton, patriarca do capitalismo concorrente e referência irrefutável à filosofia econômica pós-moderna. O primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos argumentou o que hoje se dissuade em bocas e línguas desconhecedoras da história capitalista, mas que almejam devida representatividade ideológica, visto que tão somente ideologia é o que pode preencher a lacuna entre a insegurança representativa e o populismo dos profetas de um novo mundo esperançoso.

Ora, necessário é estabelecer os critérios fundamentais para a algazarra das modernas economias. Tão somente pela intrínseca relação entre empresa e cidadão, quer-se que o Estado participe da economia, regulando-a, fiscalizando-a, capitalizando as tendências do fascínio consumo à garantia de que todos, independentemente de suas prováveis incapacidades intelectuais ao mercado, tenham a proeza de desfrutar dos mais altos padrões de refino capitalista.

O que almejam os imateriais, puristas desligados retoricamente do consumo sistemático, sumamente evidencia ímpetos acantoados de uma frustração também capitalista. Frustração além do materialismo: a angústia de não acompanhar o desenvolvimento capitalista intelectual pós-moderno.

São estes os tais que silenciosamente imploram Estado ignorando Hamilton e Colbert, porque a característica estatal que está sendo construída é a característica do mínimo esforço escorado nos ombros do assistencialismo. É a gênese, a origem, a preponderante tendência do desataviado indivíduo que vegetativo quer as regalias da meritocracia.

Comparam os tais presidentes

Comparam Barack Obama, agora confirmadamente eleito, ao presidente Lula: uma relação infeliz entre aquele que estudou em Harvard e um indivíduo que jaz mergulhado no iletrismo saudosista, referência metalúrgica à imbecilidade que pode levar a caminhos mais interessantes, como à presidência de uma nação. Os ululantes esperançosos fazem tal serviço, talvez por identificarem os mesmos argumentos revolucionários, belos, fantasiosos, solucionadores.

O terceiro-mundismo da póstuma campanha eleitoral nos EUA revela os traços do populismo eficaz. Onde há esperanças pelos olhares dos esperançosos – cativos na percepção antagônica entre a realidade e a construção de um futuro imaginativo – existe a certeza premeditada de necessidade iconicista, como a platéia que comemora no esporte predileto o final da partida.

Ora, negar o prediletismo democrata é viver à míngua das expectativas. Óbvia era a realidade da eleição de Obama.

Porém nota-se a similaridade entre a deusificação obâmica e os antiamericanos: o nacionalismo destes compõe o fundamento dos esperançosos. Intrigantemente o antiamericanismo abraça a esperança em Barack Obama, a esperança de que o futuro presidente da maior economia mundial vá deliberar contrariamente aos interesses de sua nação, com os braços abertos ao “mundo dominado pelo Império”. Esperançosos continuam, visualizando a sadofantasia de um presidente corroborando as teses antiamericanas.

Na campanha eleitoral de 2008, nunca o mundo antiamericano – e os devidos clichês esquerdistas – foram tão americanos, exacerbadamente apaixonados por uma figura inócua, e por isso um Símbolo que se respalda no desconhecido.