O mínimo esforço

O boicote, essa autoafirmação ascética presente nas mentes mais convictas, apenas refere a causa da revolta a uma epidemia que não pode ser desmembrada pelas vias intelectuais. Quando se denota pedidos e insistências na deliberada negação coletiva, como indivíduos persuadidos os quais não podem vislumbrar o contraditório, há ali a concretização do mínimo esforço, da mínima capacidade de aceitação; a máxima tendência à coisificação intelectual, alimentada pelos excrementos da privação filosófica.

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Conformidade

Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.

Fernando Pessoa

Sobre a obâmica receita

Insistir na intromissão do nome Barack Obama, em qualquer que seja a crítica em sua coisificação publicitária, é um fardo que gera conseqüências interessantes. A comum exploração de sua imagem como um indivíduo de humildade ímpar faz da crítica o repúdio à referência óbvia do homem ideal, imaginativo, visionário.

Foi escrever sobre o tal e choveu canivetes em respostas que justificam – e assumem – a influenciação de sua imagem como detentora máxima da esperança, juntamente aos conceitos mais diminutos de hipocrisia: eu, o hipócrita inesperançoso.

A mistificação das esperanças em Barack Obama acompanha a inocência lúgubre de sua caracterizada imagem, religiosamente estabelecida. Mediante a fundamentação de tal candidato como ícone ao novo mundo, seu respaldo em falácias e argumentos forjados segue a tendência natural da influência por meio das referências inusitadas.

Obama é o primeiro candidato negro por um partido influente nos E.U.A. (a rejeição opera sob o argumento do racismo intrínseco ao crítico, afirmam), representa discursivamente as minorias latinas, joga com a aproximação ocidental dos ímpetos muçulmanos, vislumbra planos simplistas aos que gemem em dores com a degradação da economia ocidental.

A receita completa.

Entrar no âmbito das reais propostas – o único e suficiente detalhe que poderia desmembrar Obama – está fora de questão, excluído de qualquer hipótese analítica. Basta o rosto do personagem carismático e nele estará a completa formação do correto idealismo, detentor da Solução.

Se com Obama acompanha o coletivismo esperançoso, o armento nega o esforço para acompanhar suas idéias. Estampa-se seu quadro de sorriso confiável e a esperança aflora com emoção e sentimento unificantes. Sabe o candidato dessa falha dos grupos que pensam com os olhos da ficção, e por isso esforçar a necessidade de compreensão de seus projetos apenas assinaria a ruína de sua própria imagem, sacralizada aos teores da ignorância – no sentido estrito da palavra -, daqueles que afastam qualquer preceito duvidoso.

A esperança em Obama se mantém com a visualização nuviosa da realidade, e quão confortável é imaginá-lo atrás da neblina, desconhecido imponente, misteriosamente iluminado pelos holofotes da multidão que proclama o grande líder. De fato se faz necessária a obtusidade para que não se apague o entusiasmo dos beatos.

O ícone

Quando se observa que as esperanças se encontram em uma única referência, que nada além de retórica oferece ao rebanho ansioso, percebe-se que a perspicácia política transformou responsabilidade em paixão, e paixão em movimento. Aquele que o faz, trazendo ao indivíduo ícone certa preponderância a uma figura mítica pós-moderna, enquadra-se perfeitamente na política de boteco, a qual se esforça em meio aos bêbados o levante de opiniões descartáveis. O esquerdismo subsiste sob os rostos de muitos personagens.

Eis a síntese daqueles que mitificam Barack Obama.

O muro, e sua ruína

Àqueles que insistem na percepção aclamada de que revogo a religião, peço a gentileza de se afastarem da visão estreita do Muro da Separação. Pelos devidos motivos que afloram aqui palavras certamente inortodoxas, a interessante relação amistosa entre conservadores e liberais (como irmãos de sangue, que abraçados esmurram a si próprios) jaz póstuma e tida como factual ausência de produção filosófica – um fato por mim muito explanado.

Por isso não me interessa, exemplarmente, a eliminação da institucionalização religiosa, sequer fincar espetos nos ímpetos e corações dos ditos conservadores e liberais: a realidade irredutível da instituição religiosa percorre a história do cristianismo como percorre a tentativa de eliminação dos conceitos libertários de Jesus Cristo.

Tenho então o problema: o termo “liberal”, que se conhece obviamente pela cadência às teses esquerdistas, invadiu as frestas do desconhecimento auto-afirmativo na pós-modernidade, assim como no conservadorismo a dissimulação da realidade se tornou uma arte suprema, quase divinamente estabelecida por critérios apadêuticos.

O muro que separada esses dois amigos é derrubado se com marteladas dá-se o ultimato da decadência a ambos os movimentos. Seria um posicionamento independente? Desconheço.

Porém ao ler o texto de um líder cristão, o qual participou de uma maratona no “mundo imperial”, é que me faço complexado em colocar novamente o coletivo como fundamento da ignorância e o individualismo uma tendência pessoal conservadora (um antagonismo aos evidentes conservadores religiosamente coletivistas). O tal é uma referência esquerdista, de bela retórica, mas amparado pelo desconhecimento do cristianismo libertário que predomina nas arquibancadas do cristianismo; com palavras bem colocadas, que emocionam os incautos e deprimidos, têm-se a fórmula da estupidez travestida em irresponsabilidade intelectual.

O que falta essencialmente ao conservadorismo ortodoxo é a reformulação de sua literatura, portanto. A escrita esquerdista é apaixonante, redondamente fantasiosa como contos de fadas em que pelos tróculos de personagens consegue-se o objetivo final; assim caminha toda e qualquer influenciação literária, que não subsiste sem o ardor da identificação própria.

Afirmar ou negar a ortodoxia religiosa e estudar o reacionário pensamento são posições individualistas, mas que se refletem no coletivo. Se Bonhoeffer é citado pelos conservadores como um personagem de sabedoria cristã notável, não se assume que sua tese fundamental é antiortodoxa e alheia aos conceitos principais da teologia. Com essa brecha no Muro da Amizade, a imbecilidade se confirma belamente quando a leitura força os meus olhos a lerem que o tal escritor era um referente… liberal.

Em quais dos panos piso? Simplesmente jogo-os fora. Ambos representam a gênese da ruína do evangelho.

Última aparição

Pode ser que nossa pequena tragédia tenha emocionado os deuses; pode ser que eles a apreciem de seus camarotes estrelados; pode ser que no fim de cada drama humano o homem seja chamado repetidas vezes a voltar ao palco. A repetição pode continuar por milhões de anos, por mera escolha, e a qualquer instante pode parar. O homem pode permanecer sobre a terra geração após geração e, no entanto, cada nascimento pode definitivamente ser sua última aparição.

G. K. Chesterton

O precário intelectual

O consolo de Emir Sader é escrever perifericamente à responsabilidade intelectual que preza os argumentos minimamente aceitáveis. A interpretação limitada de seu alicerce teórico – que traz a atual crise financeira aos patamares da iminente revolução socialista – é uma prerrogativa apaixonante se querem seus leitores a demonstração objetiva da fantástica retórica subversiva.

As profecias à decadência da liberal economia têm se alastrado como se propaga intelectuais revolucionários: ao exporem o total desconhecimento da mesma crise que alimenta os ímpetos reacionários, palavras de afirmações contundentes – religiosamente convictas – são necessárias.

A interessante relação esquerdista entre seu desconhecimento e a necessidade de exporem opiniões irrelevantes gera o saboroso grão que alimenta o francelho. O fulcro joviano de aberrações argumentativas tem como referência a precariedade investigativa: uma forma sedutora de se manterem, literalmente, irresponsáveis.

Assumir a naturalidade de um entendimento sórdido da realidade perfaz a beleza do pensamento adolescente, birrento, revolucionário.

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Leia também:

  1. O socialismo em vista de seus meios
  2. O declínio da aparente filosofia
  3. O mistério Marx