O pior dos heréticos

Por fim, aproxima-se, pousa o facho sobre a mesa e diz-lhe:

— És tu, és tu? — Não recebendo resposta, acrescenta rapidamente: — Não digas nada, cala-te. Aliás, que poderias dizer? Sei demais. Não tens o direito de acrescentar uma palavra mais do que já disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem tu és e não quero sabê-lo: tu ou apenas tua aparência; mas amanhã eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos, e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés precipitar-se-á amanhã, a um sinal meu, para alimentar tua fogueira. Sabes disso? Talvez — acrescenta o velho, pensativo, com os olhos sempre fixos em seu prisioneiro.

— Não compreendo bem o que quer isto dizer, Ivã — observou Aliócha, que escutara em silêncio. — É uma fantasia, um erro do ancião, um qüiproquó estranho?

— Admite esta última suposição — disse Ivã, rindo —, se o realismo moderno te tornou a este ponto refratário ao sobrenatural. Seja como quiseres. É verdade que o meu inquisidor tem noventa anos e sua idéia pode ter-lhe desde muito tempo transtornado o espírito. Afinal, é talvez um simples delírio, o devaneio de um velho antes de seu fim, com a imaginação esquentada pelo recente auto de fé. Mas, qüiproquó ou fantasia, que nos importa? O que é preciso somente notar é que o inquisidor revela afinal seu pensamento, desvenda o que calou durante toda a sua carreira.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski

  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
  3. Um sorriso de compaixão infinita
  4. O cardeal, grande inquisidor
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