Amor pela humanidade

Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov:

“Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. ‘Eu amo’, dizia ele, ‘a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência.

Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com as melhores pessoas, uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas, tanto mais ardo de amor pela humanidade’.”

A tese do individualismo

O individualismo contrapõe-se a qualquer respaldo intuitivo da coletividade, e pela tese de Hannah Arendt sobre a condição humana pode-se vislumbrar a essência do pensamento capitalista. Em suma, a obra de Arendt soa de extrema ternura filosófica, como em A Vida do Espírito, contrariamente aos conceitos de reafirmação do capitalismo democrático em As Origens do Totalitarismo.

A afirmação do individualismo estabelece preceitos ainda mais anojados, se temos em mente o coletivo como berço revolucionário. A essência individualista da humanidade não pode ser alterada, diz a autora, e o mercado seletivo – o natural capitalismo – é a mediação insuperável da civilização construtiva e fundamentada na organização burocrática de Weber; o que difere exemplarmente do conceito burocrático tupiniquim: a burocracia como entrave ao desenvolvimento sistemático.

Todo regime amparado pelo Estado afirmaria o inequívoco retorno à depreciação do indivíduo, para a afirmação do bem coletivo e a calcificação da intuição individualista.

Às ideologias massificadoras prevê-se a utilização do termo “social-democracia” pelos devaneios do Estado, porquanto almeja o coletivismo em deturpação do individualismo, este tido como distúrbio da intrínseca piedade humana, a piedade do coletivo.

O pensamento revolucionário nada mais é que a transfiguração do pensamento estatal massificador: atrelados às figuras políticas que fomentam a devida paixão pietista – porque pensam os tais nos segregados, excluídos pela juvenil conspiração do mercado arrebatador -, de forma menos branda fazem o papel da intolerância acivilizada ao indivíduo, visto que seus ímpetos foram ofuscados pelo amor ao Estado, a ideologização do Poder nas magnitudes estatais.

A tese do individualismo de Hannah Arendt é a exploração dos pontos contraditórios do pensamento revolucionário. O esquerdismo não se mantém pelas próprias suposições, mas tão somente com a negação do oposto. É o que filosoficamente seria chamado “o pensamento subversivo”, teimoso, juvenil, almejado pelos mesmos parâmetros teóricos do cristianismo libertário, que será ainda analisado.

Quem sou eu?

Quem sou eu? Eles frequentemente me contam
Eu caminho do meu confinamento na cela
Calmamente, alegremente, firmemente,
Como um escudeiro em seu palácio.

Quem sou eu? Eles frequentemente me contam
Eu costumo conversar com meus guardiões
Livremente e amigavelmente e claramente,
Como se estivessem sobre meu comando.

Quem sou eu? Eles também me dizem
Eu suporto os dias do infortúnio
Igualmente, sorridentemente, orgulhosamente,
Como alguém acostumado a vencer.

Sou eu então realmente tudo o que
outros homens contam?
Ou sou eu somente o que eu sei de mim mesmo?
Inpaciente e ansioso e doente, como
um pássaro numa gaiola
Lutando para respirar, como se
mãos estivessem
comprimindo minha garganta,
Saudades de cores, de flores, de
vozes dos pássaros,
Sedento por palavras de gentileza, por
vizinhança,
Lançando-se em espectativa de grandes
eventos,
Impotentemente tremendo por amigos à
uma infinita distância,
Cansado e vazio em orar, em
pensar, em fazer,
Desmaiado, e pronto a me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou o outro?
Sou eu uma pessoa hoje e
amanhã outra?
Sou eu ambos ao mesmo tempo? Um hipócrita
anterior aos outros,
E anterior a mim um desprezivelmente
atormentado fracote?
Ou algo em mim permanece como
uma armada derrotada,
correndo em desordem de uma vitória
já ganha?

Quem sou eu? Eles me ridicularizam,
essas pequenas questões pessoais.
Quem quer que eu seja, Onisciente, Ó
Deus, eu sou Teu!

Dietrich Bonhoeffer

O respeito pelo conhecimento

Que faça o ocidente o prelúdio pela decadência da respeitabilidade aos idosos, os quais almejam aderir os ouvidos dos aprendizes às palavras de sabedoria. A realidade contemporânea difere evidentemente dos tempos passados: não mais são os anos de vida prioridade; crianças elevam-se em conhecimento, substituindo a respeitabilidade em escárnio.

Estudar os antigos filósofos do oriente asiático é entrelaçar irremediavelmente o conhecimento ao desenvolvimento da vida: a valoração máxima do conhecimento encontra na velhice a sabedoria em seu estágio irreversível. O idoso, portanto, era o símbolo evidente da preservação cultural e indivíduo referência aos subjugados.

A ingenuidade de que a idade atualmente ainda profere irrefutável respeito, tão somente pela idade, foi superado: é o conhecimento a causa da reverência.

Os pequenos reconhecem tal perspectiva, que pela necessidade atual atrelam cultura à demonstração objetiva de informação. É uma realidade que devem os idosos absorver, se querem retomar os patamares anteriores de respeitabilidade. A valoração do homem evidencia o valor da intelectualidade, o moderno requisito essencial à civilização.

A verdadeira dor

A verdadeira dor, aquela que nos faz sofrer profundamente, às vezes transforma até o homem mais impulsivo em alguém mais sério e constante. Os pobres de espírito até se tornam mais inteligentes depois de uma grande dor.

Fiódor Dostoiévski

O socialismo em vista de seus meios

O socialismo é o fantasioso irmão mais jovem do quase decrépito despotismo, do qual quer herdar; suas aspirações são, portanto, no sentido mais profundo, reacionárias. Pois ele deseja uma plenitude de poder estatal como só a teve alguma vez o despotismo, e até mesmo supera todo o passado por aspirar ao aniquilamento formal do indivíduo: o qual lhe aparece como um injustificado luxo da natureza e deve ser transformado e melhorado por ele em um órgão da comunidade adequado a seus fins.

Em virtude de seu parentesco, ele aparece sempre na proximidade de todos os excessivos desdobramentos de potência, como o antigo socialista típico, Platão, na corte do tirano siciliano: ele deseja (e propicia sob certas cirscunstâncias) o Estado ditatorial cesáreo deste século, porque, como foi dito, quer ser seu herdeiro.

Mas mesmo essa herança não bastaria para seus fins, ele precisa da mais servil submissão de todos os cidadãos ao Estado incondicionado como nunca existiu; e como nem sequer pode contar mais com a antiga piedade religiosa para com o Estado, mas antes, sem querer, tem de trabalhar constantemente por sua eliminação – a saber, porque trabalha pela eliminação de todos os Estados vigentes -, só pode ter esperança de existência, aqui e ali, por tempos curtos, através do extremo terrorismo.

Por isso prepara-se em surdina para dominar pelo pavor e inculca nas massas semicultas a palavra ‘justiça’ como um prego na cabeça, para despojá-las totalmente de seu entendimento (depois que esse entendimento já sofreu muito através da semicultura) e criar nelas, para o mau jogo que devem jogar, uma boa consciência.

O socialismo pode servir para ensinar, bem brutal e impositivamente, o perigo de todos os acúmulos de poder estatal e, nessa medida, infundir desconfiança diante do próprio Estado.

Quando sua voz rouca se junta ao grito de guerra ‘o máximo possível de Estado’, este, em um primeiro momento, se torna mais ruidoso que nunca. Porém logo irrompe também o oposto, com força ainda maior: ‘o mínimo possível de Estado’.

Nietzsche em Humano, Demasiado Humano

O ascético pensamento teológico

Não se importam os exegetas em exporem as disparidades interpretativas da Bíblia, mas concluem que há, sob algum ponto obscuro da teologia sistemática, devida formalização da leitura bíblica, o antídoto indescoberto perante a subjetivação da espiritualidade cristã. De fato, ocorre que as tentativas para a aproximação objetiva da exegese e a sistematização da leitura religiosa é o passo sutil pelas veredas da aniquilação filosófica, cujos conceitos somente se respaldam pelas teses inéditas.

O estudo filosófico religioso se transfigura, portanto, na famigerada filosofia sacra, não sectária – termo que não assumidamente almeja o relativismo teológico dentro da sistemática teológica conservadora: fazem a filosofia que segura as rédeas de novos pensamentos. Porém a insistência em equiparar tamanho equívoco do conhecimento à filosofia e sua mutabilidade dá-me o parecer de que toda sua estrutura ascética está voltada minimamente ao conservadorismo das palavras antes proferidas, argumentos que hoje sumamente moldam as estruturas eclesiásticas.

Quando exercida em seu livre ensejo, a filosofia é destruição e escombros se o pensamento ortodoxo não a observa atentamente; a produção filosófica nos salões da espiritualidade é o convite inefável ao subjetivo.

A separação filosófica religiosa – a ascese do conhecimento místico – somente se ampara no equívoco da secularização do pensamento como um pressuposto de envenenamento dos alicerces ortodoxos: uma preocupação deveras interessante, se a Verdade se demonstrou em brilho e clareza ímpares, como afirmam os preletores da limitação filosófica. Bradam-se conceitos classificatórios: o subjetivo se perfaz errôneo, e a obviedade objetiva teológica se faz Verdade.

Perguntaram-me os motivos inerentes aos textos selecionados de Nietzsche. Pressuponho de suas palavras a representação máxima dos olhos filosóficos aos conceitos fundamentais da teologia, e com letras concretiza certa visão sectária, antieclesiástica, não especulativa, mas que desvenda belamente questões simplórias do pensamento religioso – o ascético pensamento teológico.