Um sorriso de compaixão infinita

Apareceu docemente, sem se fazer notar, e — coisa estranha — todos o reconheciam. Seria uma das mais belas passagens de meu poema explicar a razão disso. Atraído por uma força irresistível, o povo comprime-se à sua passagem e segue-lhe os passos. Silencioso, passa ele por entre a multidão com um sorriso de compaixão infinita. Seu coração está abrasado de amor, seus olhos desprendem a Luz, a Ciência, a Força que irradiam e despertam o amor nos corações.

Estendelhes os braços, abençoa-os, uma virtude salutar emana de seu contato e até mesmo de suas vestes. Um velho, cego de infância, exclama em meio da multidão: ‘Senhor, cura-me e eu te verei’. Uma casca cai de seus olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão sobre as marcas de seus passos. As crianças lançam flores à sua passagem, canta-se, grita-se: ‘Hosana!’. ‘É ele, deve ser ele!’, exclama-se. “Só pode ser ele!”.

Ele pára no adro da Catedral de Sevilha no momento em que trazem um pequeno ataúde branco no qual repousa uma menina de sete anos, a filha única de uma pessoa notável. A morta está coberta de flores. ‘Ele ressuscitará tua filha’, gritam na multidão para a mãe lacrimosa.

O padre, que sai a receber o ataúde, olha com ar perplexo e franze o cenho. De súbito, repercute um grito, a mãe se lança aos seus pés: ‘Se és tu, ressuscita minha filha!’, e estende os braços para ele. O cortejo pára, deposita-se o caixão sobre as lajes. Ele a contempla, cheio de compaixão, e sua boca ordena docemente mais uma vez: ‘Talitha kumi’*, e a menina se levantou.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski

* “Jovem, levanta-te”. Lucas, C. VII, v. 14. Palavras da linguagem aramaica, pronunciadas por Jesus Cristo quando da ressurreição do filho da viúva de Nain.

  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus
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