Moral ascética

Há uma obstinação contra si próprio, a cujas exteriorizações mais sublimadas pertencem várias formas de ascese. É que certas pessoas têm uma necessidade tão grande de exercer a sua violência e ânsia de dominação que, à falta de outros objetos, ou porque nunca o conseguiram fazer de outra maneira, acabam por vir a tiranizar certas partes do seu próprio ser, por assim dizer, setores e níveis de si próprias.

É assim que muito pensador se declara adepto de opiniões que, visivelmente, não servem para aumentar ou melhorar a sua reputação; alguns atraem literalmente sobre si a desconsideração dos outros, quando lhes seria fácil, graças ao silêncio, continuarem a serem homens considerados; outros revogam as suas opiniões anteriores e não temem ser, doravante, chamados de inconseqüentes; pelo contrário, esforçam-se por isso e comportam-se como atrevidos cavalheiros, que só gostam verdadeiramente do cavalo, quando ele, esbravecido, coberto de suor, já está espantado.

É assim que o homem escala por caminhos perigosos às mais altas montanhas, para se rir com escárnio do seu nervosismo e dos seus joelhos trêmulos; é assim que o filósofo defende os pontos de vista da ascese, da humildade e da santidade, cuja luz à sua própria imagem é desfiada da pior maneira. Este despedaçar de si próprio, este escarnecer da sua própria natureza, este spernere se sperni, de que as religiões fizeram tanto caso é, a bem dizer, um grau muito elevado da vaidade.

[…]

Em toda moral ascética, o homem adora a parte de si próprio como um deus e, para isso, necessita diabolizar a parte restante.

Nietzsche em Humano, Demasiado Humano

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