Grãos

Uma pérola é um templo construído pela dor em torno de um grão de areia. Que anseios construíram nossos corpos, e em volta de que grãos?

Khalil Gibran

A arte piedosa

O vislumbre de uma arte definhada pelas mazelas da carência intelectual é facilmente encontrado na religiosidade contemporânea, e aos ralos se vai a arte como pressuposto de elevação cultural. Envolve-se tão somente a perspectiva do artista em sua exploração do imaginário humano, que para tal se esforça em diminuir o abismo separador da arte secular e sacra atuais.

Em nome de Deus produzem deformidades artísticas pela justificativa da pia sinceridade; querem estes, dançantes nos palcos da fé, convencer o secularismo de que é válido o limitado ensejo de seus ímpetos, para que no secular tenham a merecida recompensa – certamente ainda não conquistada.

Esforçam-se, de fato, com sorrisos e mãos levantadas, e quão belos são os argumentos que fundamentam seus gestos. Porém o abismo é evidente: a intelectualidade defasada não expõe dúvidas aos observadores. A arte é destruída pelos passos e gestos daqueles que são espelho da limitação cultural que assola as mentes do cristianismo atual.

A deformidade intelectual se resume na crítica reprimida pela compaixão à lealdade da causa, que se estende consequentemente a outras áreas da nefasta religiosidade aparente.

De fato, agem honestamente ao contrariar a essência artística instituída quando colocam à frente dos sinceros intuitos a vontade e gosto divinos. Reafirmam – com a mesma veemência pela qual são excluídos de conceitos artísticos – que não são a homens suas investidas, sequer aos críticos.

Os pilares do apedeutismo são frágeis, e por isso a constante necessidade do afastamento dos tais do secularismo. Ao entrarem no parâmetro não cristão de arte, inevitavelmente terão de se submeter à elevação cultural: um fardo de difícil entendimento, que necessita de esforço e consentimento mútuo de todo um coletivo abraçado na mesma credulidade.

Entretanto sabem, com a mesma sinceridade da arte grosseira como aberração intelectual, que a dita submissão seria o fenecimento do movimento evangélico, este totalmente atrelado a pensamentos diminutos, bárbaros.

Condenação da vida

Ao falar do valor da vida falamos sob a inspiração e através da óptica da vida. A própria vida nos obriga a determinar valores, a própria vida evolui por meio de nossa mediação quando determinamos esses valores. Infere-se daí que toda moral contra a Natureza, que considera Deus como idéia contrária, como a condenação da vida é apenas na realidade uma apreciação da vida; de que vida? De que espécie de vida? Já apresentei a contestação: da vida descendente, debilitada, fatigada, condenada.

A moral, tal como foi entendida até agora, tal como foi formulada em último lugar por Schopenhauer – como negação da vontade de viver -, essa moral é o mesmo instinto de decadência que se transforma em imperativo; nos diz: ‘caminha para tua perdição’; é a sentença dos que estão sentenciados.

Nietzsche em O Crepúsculo dos Ídolos

Gafanhotos

Quando se ama a leitura tem-se por ela um sentimento de exclusividade inegociável. Dói-me precariamente vislumbrá-la sob o conhecimento de outros olhos, não atentos à profundidade do autor e, portanto, imerecidos leitores de majestosas literaturas. Corroem sedutoramente o ouro escondido nas frestas de palavras sutis, não compreendidas pelos rudez que intelectualmente devastam sua valiosidade.

São gafanhotos barulhentos em suas investidas ao consumo do alimento: espalham o ouro como pérolas jogadas ao cerdos. Afundado em lamas, não mais vale as tentativas do redescobrimento. Foi pisada a preciosidade e com ela o autor migra aos porões literários, esquecido por seus reais admiradores. Findando-se a leitura como anexo cultural, a precariedade intelectual subjuga a arte ao escárnio, o belo ao repugnante, desfazendo a lã em retalhos irreconhecíveis, cujos restos se encontram na boca do sáfaro leitor.

Os tais manuseiam livros em animalescos trejeitos: adestrados à alegre obtusidade, ignoram que ali a liberdade é anunciada. Nota-se a diferença entre o leitor e o curioso quando não é o autor a referência, mas alguns textos que selecionados satisfazem a freguesia; o desprezo máximo à obra.

Consumam o desserviço à Humanidade – o prelúdio da decadência européia que Nietzsche profetizou -, que na pós-modernidade se alastrou pelas mazelas da evidente superficialidade, roupagem reluzente cujos contornos escondem mentes definhadas pela obviedade.

Um sorriso de compaixão infinita

Apareceu docemente, sem se fazer notar, e — coisa estranha — todos o reconheciam. Seria uma das mais belas passagens de meu poema explicar a razão disso. Atraído por uma força irresistível, o povo comprime-se à sua passagem e segue-lhe os passos. Silencioso, passa ele por entre a multidão com um sorriso de compaixão infinita. Seu coração está abrasado de amor, seus olhos desprendem a Luz, a Ciência, a Força que irradiam e despertam o amor nos corações.

Estendelhes os braços, abençoa-os, uma virtude salutar emana de seu contato e até mesmo de suas vestes. Um velho, cego de infância, exclama em meio da multidão: ‘Senhor, cura-me e eu te verei’. Uma casca cai de seus olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão sobre as marcas de seus passos. As crianças lançam flores à sua passagem, canta-se, grita-se: ‘Hosana!’. ‘É ele, deve ser ele!’, exclama-se. “Só pode ser ele!”.

Ele pára no adro da Catedral de Sevilha no momento em que trazem um pequeno ataúde branco no qual repousa uma menina de sete anos, a filha única de uma pessoa notável. A morta está coberta de flores. ‘Ele ressuscitará tua filha’, gritam na multidão para a mãe lacrimosa.

O padre, que sai a receber o ataúde, olha com ar perplexo e franze o cenho. De súbito, repercute um grito, a mãe se lança aos seus pés: ‘Se és tu, ressuscita minha filha!’, e estende os braços para ele. O cortejo pára, deposita-se o caixão sobre as lajes. Ele a contempla, cheio de compaixão, e sua boca ordena docemente mais uma vez: ‘Talitha kumi’*, e a menina se levantou.

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O Grande Inquisidor é a seleção do capítulo V, livro V,
da obra Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski

* “Jovem, levanta-te”. Lucas, C. VII, v. 14. Palavras da linguagem aramaica, pronunciadas por Jesus Cristo quando da ressurreição do filho da viúva de Nain.

  1. A mesma fé de outrora
  2. Em nome de Deus

A serpente

As sandálias dos sacerdotes rastejam sobre o piso, o templo prossegue solitário pelos verdes campos. Gostam eles de apresentar dádivas ao divino, fulminando frutos da Árvore da Sabedoria ao incenso que infesta o altar: de persistência invejável colocam-se à piedade pelos dobrados joelhos, doloridos, humilhados. Quando inútil, a Árvore é ignorada e supersticiosamente tem-na enigmática.

Se maltratados estão os joelhos, gostam os santos de mostrar as marcas do sacrifício. Os alicerces aveludados do templo escondem o abrigo das sombras, como a pérola que engana na beleza sua animalesca procedência. As sombras vacilantes – resmungantes como o vento -, incitam olhares desconfiados à serpente; sua face é serena e a calda, sedutora.

Falou-se remotamente que em dias menos obscuros aconselhava a serpente em misteriosos caminhos, antes de sua súbita calcificação por motivos ainda desconhecidos. Os sacerdotes transitam às rezas quando esbarram no ser, as sombras grunhem em gemidos tenebrosos no vislumbre ao pavor sacerdotal. Têm medo os convictos, dados à penitente oração, pretensiosamente sacros; e com vívida empunhadura retornam ao santuário.

Único orador é um dos santos que não reza à espreita dos sacrifícios, cuja sabedoria é inusitada aos seus companheiros: os joelhos não têm calos. Colheu méritos discutíveis ao revelar que sua prece é dada aos poemas da majestosa Biblioteca, esquecidos pergaminhos empoeirados ao relento da censura sacerdotal. “São palavras tempestuosas, de grossas interpretações. Não nos vale as indicações de versos incertos. Que não haja santos abraçando suas letras, sequer recitando-as”, avisou os piedosos.

Sentou o santo sapiente no banco e leu um poema nunca antes tocado, senão pela mão do autor. Os indícios do tempo borraram alguns dos versos, porém não o suficiente à destruição da bela mensagem, e pesarosamente leu ele referências intrigantes à eternidade.

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  1. Umbral