Peter Higgs, do “Bóson de Higgs”, contra Richard Dawkins

Costumo afirmar que a noção de superioridade científica pela “descoberta de novos padrões científicos”, como o Bóson de Higgs, é geralmente um atributo dos leigos e dos cientistas da área de humanas – recentemente li um pequeno panfleto de um cientista social que discutia genética -, estes que não utilizam prioritariamente os métodos científicos e que observam a ciência enquanto entidade estática e perfeita no mundo científico. Querem a ciência, contrariando-a. Em verdade, a ciência com “c” maiúsculo (comum em praticamente toda a literatura ateísta) nada mais é que a atribuição divinatória e transcendente dos métodos científicos, mas não só: envolve também uma formulação imatura da estética cientificista, algo muito parecido com a imagem fotográfica do cosmos que no rodapé nos guarda inscrições como “a Ciência é bela”. De uma forma mais amena, é possível dizer que essa imaturidade é sincera e honesta, pois decorre de uma tentativa de fato comum em fazer dos tubos de ensaio a imagem insuperável de conhecimento existencial. Augusto Comte continua a fazer escola.

Isso tem um preço, e o preço é a paulatina desmoralização perante a comunidade científica. Importantíssimo sempre colocar em pauta a idealização da fé e religião de Richard Dawkins, uma vez que representa, sem tirar nem por, a práxis discursiva dos ateus e agnósticos, principalmente no que concerne aos argumentos de emoção e ao estudo superficializado das crenças religiosas. Dawkins, assim como os já desmoralizados Christopher E. Hitchens e Peter Atkins, sucumbe na estratégia que traçou desde os idos da década de 90, quando ainda antes de Deus, um delírio prelecionava o caráter de luta política daquilo que era uma preocupação descentralizada.

O número crescente de renomados cientistas que vêm descredibilizando Dawkins cresceu de forma exponencial nos últimos 5 anos, não somente pelo surgimento de livros e teses de estudos das falácias apresentadas por Dawkins em seus artigos mais recentes, mas também pela necessidade premente de se delinear no meio intelectual o que é e representa os ateus da estirpe dawkinsiana. Em outras palavras, se Richard Dawkins representa o ateísmo político em sua essência mais rude, é por meio dele a que se chega a uma solução suficiente de suas falácias. Criticá-lo sistematicamente deixa nu o rei: o ateísmo político se esfarela.

Em recente entrevista ao El Mundo, Peter Higgs afirmou:

“What Dawkins does too often is to concentrate his attack on fundamentalists. But there are many believers who are just not fundamentalists. [...] Fundamentalism is another problem. I mean, Dawkins in a way is almost a fundamentalist himself, of another kind.”

O teor dessa afirmação é nova para quem não o conhece. Higgs há tempos é adepto da ideia da plena conciliação entre fé religiosa e ciência, ainda que não se declare religioso. Esse posicionamento é de suma importância, porquanto mesmo os ateus politizados, imbuídos do ativismo político, tentaram fazer de Higgs aquele que iniciou o desmantelamento periódico da religião em nome de sua descoberta. Não obstante grande parte dos ateus cientificistas sequer serem cientistas de factonão se lhes retira a padronização discursiva em torno da idealização moral da ciência, a qual tenta suplantar a moralismo religioso.

No que concerne à incompatibilidade entre religião e ciência, o que disse Higgs?

“The growth of our understanding of the world through science weakens some of the motivation which makes people believers. But that’s not the same thing as saying they’re incompatible. It’s just that I think some of the traditional reasons for belief, going back thousands of years, are rather undermined. But that doesn’t end the whole thing. Anybody who is a convinced but not a dogmatic believer can continue to hold his belief. It means I think you have to be rather more careful about the whole debate between science and religion than some people have been in the past.”

A imprensa internacional, em verdade adepta da falsa rivalidade entre ciência e religião, tem acobertado o fato de que a citação de Higgs corresponde a uma escalada de acontecimentos nos quais se observa a degradação da confiança da comunidade científica para com a honestidade de Dawkins. Quando acusado de engendrar um ativismo político, Dawkins sequer se manifestou, ao contrário de Hitchens que assumiu seu viés amplamente politizado, inclusive no que se refere à religião e às políticas de Estado (no passado, Hitchens era socialista).

Eis a minha sugestão: Dawkins não conseguiu esforços para sua investida após o debate com o matemático John Lennox, principalmente porque Lennox coloca em seus argumentos não somente o conhecimento científico, mas também o conhecimento da Filosofia da Ciência, matéria por ele lecionada. Se a idealização política foi ao menos maquiada, as contradições filosóficas em torno do argumento de Dawkins ressaltam a depreciação de todos os movimentos a ele vinculados, inclusive daqueles que já em 2012 fizeram de Higgs um ateu não assumido. Como o machado da sentença final, a frase de Higgs aniquila praticamente 150 páginas de Deus, um delírio.

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A obra Deus, um delírio, de Richard Dawkins, já foi por mim lida duas vezes, em dois momentos distintos de minha percepção sobre o ateísmo. Na primeira leitura ainda imaginava o ateísmo como um problema meramente existencial e que corroborava dúvidas intermináveis sobre assuntos dispersos. Na segunda leitura, após um amplo estudo de Calvino e da teologia reformada, Dawkins mostrava não somente um desconhecimento teológico insuperável, contudo indicava caminhos discursivos e falaciosos já explorados, e portanto facilmente reconhecíveis como uma estratégia de convencimento desonesta [e por isso hoje descredibilizada]. Nesta terceira leitura, acompanho Dawkins com Alister McGrath em O delírio de Dawkins após estudos ainda insuficientes da teologia medieval. Sei que McGrath falhou na sua refutação ao simplificar seus estudos. Porém, certas elucidações são pertinentes e indicam o caminho  bibliográfico de obras somente encontradas no exterior.

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