A ausência predita das virtudes individuais

Presenciar um naturalista ingenuamente citar Leonardo Boff é encantador, contudo o desprezo repentino é inevitável e evidentemente humano. Certamente tal ocorre porquanto Boff não consegue separar dissimuladamente sua intenção da escrita, exemplificando a cada palavra o que pro detrás há de mais primitivo na ecologia. E se a consideração de Boff como um pagão é automática, a superioridade cultural do cristianismo – ou, leia-se, do Ocidente -, demonstra-se em demasia irrefutável. Ocorre que o autor de diversas pérolas ecológicas não somente escreve e dita os liames do ambientalismo católico-marxista, porém é também caracterizado um filósofo e intelectual apto ao deslinde de todo e qualquer paradigma apocalíptico.

Assim é que Boff, ao afirmar que a Mãe Terra encontra-se estressada, tem a plausibilidade de sua tese minimamente analisada quando o sensato dentro da comunidade filosófica acadêmica seria a sumária descartabilidade. Aquele que lê Tim LaHaye deveria de pronto debruçar-se nos avisos de piedosos como este que cá comento e aquele que lá consegue a proeza de submeter o aquecimento global e a nova era glacial a um mesmo fator retórico.

Afirmo “seria” porque a visão de Boff como intelectual ambientalista está intrincado ao fato de que naturalmente o mesmo age em detrimento da opressividade alheia. Seus argumentos se constroem sob o alicerce de anteriores desgraças meritocráticas, que hão de expressar o problema da igualdade: o igualitarismo, novamente afirmo, é a ausência predita das virtudes individuais.

Eis o perigo daqueles que fundamentam seus anseios nas palavras do ecologista, vez que, de uma forma ou de outra, convergir-se-á  a tese exposta em mera faceta que antecede os argumentos igualitários. Faltam-nos, contudo, autores predispostos em adequar esclarecidamente a relação íntima entre o igualitarismo e o socialismo oriental; ou, retoricamente mais específico, a inevitabilidade da relação apaixonada do igualitarismo e a coisificação do indivíduo, o genocídio da personalidade, o totalitarismo da previsibilidade, uma hipótese sobre por que o nazismo tem a fama pior que o comunismo.

William Hazlitt e adjetivações rodriguianas

Se na imprensa convencional a constatação do descartável se torna mais frequente, é na internet que belamente se elucida o preenchimento do vazio televisivo, ou da entropia jornalística do periódico minocartista. Rodrigo Gurgel nos brinda com duas citações elementares, respectivamente, William Hazlitt, Humanista com “h” maiúsculo, e Nelson Rodrigues, em sua adjetivação sublime:

O princípio do sufrágio universal, por mais aplicável que seja a questões de governo, que têm a ver com os sentimentos e os interesses comuns da sociedade, não é aplicável, de modo algum, aos assuntos do gosto, pois, estes, só podem julgá-los os espíritos mais refinados. A humanidade nunca pôde entender completamente os maiores esforços do gênio, em qualquer uma das artes. Há uma infinidade de belezas e verdades muito além da sua compreensão, que chegam a ser comuns no mundo porque o refinamento e a sublimidade se misturam com outras qualidades, de natureza mais óbvia e vulgar. O gosto constitui o grau mais elevado da sensibilidade, assim como a impressão que atua sobre as mentes mais refinadas, da mesma forma que o gênio é o resultado da força do sentimento e da invenção. Pode-se dizer, no entanto, que o gosto público é suscetível de uma melhora gradual, pois o povo termina fazendo justiça às obras de maior mérito. Semelhante ideia é um erro. A reputação que, ao final, e quase sempre lentamente, se concede às obras de gênio provém da autoridade, não do assentimento popular nem do senso comum do mundo.

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Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os “melhores” que faziam os usos, os costumes, os valores, as ideias, os sentimentos, etc. etc. Perguntará alguém – “E que fazia o idiota?”. Resposta: – fazia filhos (…) E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os “melhores” se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina. No presente mundo, ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. Sem esse apoio, o sujeito não existe, simplesmente não existe. E, para sobreviver, o intelectual, o santo ou herói precisa imitar o idiota. O próprio líder deixou de ser uma seleção. Hoje, os cretinos preferem a liderança de outro cretino.

E adiciono esta do ensaísta:

O brasileiro, inclusive o nosso ateu, é um homem de fé. Conheço vários marxistas que são, ao mesmo tempo, macumbeiros. E um povo que pode conciliar Marx e Exu está salvo e, repito, automaticamente salvo.

O breve contato com Naomi Klein

Devo assumir que o breve contato com Naomi Klein se deu em uma entrevista no programa Charlie Rose Show, que explicando seu livro No Logo inspirou-me facilmente a atribuí-la conotações anticapitalistas, apesar de sua aparência e retórica adolescentes. De fato. Eis que dela ressurge a antiga e predisposta afirmação: “o capitalismo é opressor”. Mas o interessante de seus discursos é a tentativa constante e premeditada de fundamentar a opressividade do livre mercado com os argumentos de Milton Friedman: segue-o como a criança ao pirulito e nas palestras indica o economista como seu rival, senão inimigo nato.

Há pensadores coletivistas que inclinam meu respeito, mas não quando a afirmação é a releitura de velhos hábitos de anticapitalistas ianques, que debruçados no conforto do mercado acham-se premeditados em avisar o mundo as mazelas de seus edredons.

Naomi Klein, contudo, envergonha seus companheiros ao estabelecer um parâmetro de comparação entre sua tese e a plausibilidade econômica da teoria de Friedman,  que esmaga-a sumariamente apesar dos esforços constantes em tê-lo como um econômico póstumo e irrelevante. Naomi, então persuadida como uma intelectual, lança suas pérolas em seminários que enfatizam a libertação da América Latina da opressora realidade das corporações, conforme os exemplos por ela ofertados: Bolívia, Equador, Paraguai, Brasil, Venezuela – ícones da civilização humana.

E ela torna a falar rapidamente enquanto Rose a fita com olhar de tédio e previsibilidade: é a decadência da imagem de Klein como intelectual, conquanto interrompida pelo entrevistador facilmente nos presenteia um semblante de frustração. Charlie Rose pergunta, acerca do desastre em New Orleans, dos méritos da rede de supermercados Wall Mart, elogiada pois que administrou abrigos à população. Naomi gagueja amadoramente e o entrevistador preza por outro assunto.

E antes brinca sutilmente Charlie Rose: “curioso que após sua morte ainda falamos de Friedman”.

Naomi Klein torna-se irrelevante.

O filósofo bárbaro

One of the most astute “sign readers” of today is the reigning Pope. Here is one of Benedict XVI’s most startling yet accurate readings: “We are moving toward a dictatorship of relativism which does not recognize anything as for certain and which has as its highest goals one’s own ego and one’s own desires.” If I might put it into less philosophical terms, what the Holy Father is telling us is that Western culture is descending into barbarism.

We tend to associate barbarism with images of primitive savages looting and pillaging villages, razing the walls of cities, and enslaving women and children. However, the Holy Father is suggesting here an entirely new kind of barbarism, one with a distinctly spiritual character. Civility is the quality of soul and society by which we recognize not only that other people exist, but also that they have the right to our courtesy, dignity, and respect. Civilization, then, as the opposite of barbarism, is founded upon the recognition of the dignity and rights of the other. Thus, a culture in which “the highest goals [are] one’s ego and one’s own desires” is the very definition of barbaric.

[...]

The philosophical barbarian does not wish to have any external demands imposed upon him, for he desires all of reality to conform to his presuppositions, prejudices, and plans. He is unwilling to open his soul fully to the objects and entities around him, for he does not trust that any good will come to himself from such vulnerability. Instead of accepting the imposition of an objectively real world with infinite plenitude and profundity, he imposes upon it his paltry perspective, thereby rejecting a rich, resplendent reality for a scanty and superficial one. He reduces reality to the size of his shrunken soul. Since the less there is to know, the less there is to love, the end result of this barbaric state of soul, tantamount to staring at one’s spiritual navel, is perpetual, relentless boredom.

Thaddeus J. Kozinski

A vítima e o opressor

Os conceitos equivocados quando apreciados pela filosofia trazem em si a objetividade de ser afastado, sumariamente,  qualquer respeito à tese exposta. É por tal motivo que o filósofo, quando expõe a concepção da realidade de forma anacronicamente estabelecida, como partícipe da quimera que instiga a mera especulação, não enseja grande curiosidade pela limitação teórica, não obstante, de seu equívoco essencial.

De tal forma que não é o pensador aquele necessariamente submetido à busca da Verdade filosófica, ou de sua ausência, conforme Nietzsche nos ensina, contudo, se orientado pelas premissas da Filosofia, submete-se automaticamente às caracterizações do que é antagônico ao verdadeiro, leia-se, a mentira estabelecida.

Mas a boa intenção reina na intelectualidade contemporânea e a terminologia “mentiroso” tornou-se adjetivação depreciativa e não de fato uma avaliação da tese ofertada. Aquele que mente, portanto, expondo sua tese de forma errônea e com pressupostos sabidamente safados é envolvido pela intenção subjetivada, que há de trazê-lo ao conforto da aceitação do ingênuo e leigo no que por detrás se escora o intelectual em suas afirmações. Para tanto, como não sobrevive a tese no invólucro da mentira se inexistente a vítima e o opressor, seleciona-se antecipadamente ambos os polos na sustentação da tese exposta, que ainda incompleta termina o desfecho sempre indicando quem são aqueles que oprimidos merecem a liberdade inevitável, antes indisponível, porém agora pelo oráculo revelada.

Uma verdade irrefutável

Uma hipótese sobre por que o nazismo tem fama pior do que o comunismo

Em O Indivíduo leio a pérola de Pedro Sette-Câmara:

Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.

O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.

És um tolo

Onde estão todos aqueles que trouxeram a lenha a esta senhora? Onde está o padre que lhe ungira o último clamor, quando ainda amarrada pelas cordas implorava por clemência?, exclamou um dos observadores, que em desespero perante as imagem choramingava impetrando suas indagações. Porém em circunstância propícia ao consolo o padre lhe explicou a essência do sacrifício àquele que antes implorava misericórdia à velha:

- Esta senhora, meu caro, que praticava as ciências ocultas cuja perversão se evidenciava em suas vestes é um símbolo e estigma desta comunidade. Sacrificá-la trouxe-lhes a paz e a comodidade. Vejam! Aram as terras com sorrisos premeditados e com fervor aplicam as advertências a seus filhos travessos. A idosa que jaz pregada na macieira não é outro objeto que o gatilho à manutenção dos bons servos, que necessitam das calamidades das preces e palavras de conforto.

Levantou os olhos ao céu nublado, e continuou.

- A calamidade, o sacrifício, a vítima que instiga esses crédulos lhes dão o combustível de novas interpretações e, se não bastasse, o prestígio de se argumentar acerca das soberanias da Fé. “Foi-lhe permitida a morte pelo bem de sua própria alma”, ouve-se a todo o momento. Mal percebem que se limitam à obviedade da desgraça, desapegados do principal. Deus em nada se envolve quando está sobre o ombro do homem a responsabilidade pela manutenção de nossos servos, que de tal forma apaixonados pelo tétrico constantemente retornam a argumentar sobre a providência divina.

- És um tolo, santo padre. Em breve, esta mesma matula irá procurar por outra calamidade para que se justifiquem os anseios de suas mentes. Em breve, santo padre, tu irás também convergir a tal situação. Irás a tempo ser escolhido como a vítima, o coitado, ou a escória pela qual regem-se as desgraças da comunidade. Um tolo, nada mais, que não percebe a magnitude desse enredo: desfigurada pelo fogo, a velha é a predição e a gênese de eternos sacrifícios, intermináveis, e que culminam na aniquilação total e irresponsável.

O beato assentiu com a cabeça, e se retirou à capela.

Haiti e Brasil

2009 Index of Economic Freedom, da Heritage Foundation, estabelece seus parâmetros de análise que são comumente de duvidosa qualidade. Contudo, constata-se algumas das peculiaridades que regem os países classificados como subdesenvolvidos: o mercado é amparado pela piedade do Estado. O Haiti, que sofre com a devastação completa de suas estruturas básicas após os recentes acontecimentos, segue o caminho do qual o Brasil insiste abraçar: as semelhanças são evidentes e, não obstante, caracteristicamente assistencialistas.

Eis alguns trechos:

The overall freedom to conduct a business is severely impeded by Haiti’s burdensome regulatory environment. Starting a business takes an average of 195 days, compared to the world average of 38 days. Obtaining a business license takes about five times longer than the world average of 234 days.

Haiti’s simple average tariff rate was 2.8 percent in 2006. Import controls, import quotas on some food products, some import licensing requirements, inadequate trade capacity and infrastructure, inefficient port administration, and customs corruption add to the cost of trade. Fifteen points were deducted from Haiti’s trade freedom score to account for non-tariff barriers.

Haiti has high taxes. The top income tax rate is 30 percent, and the top corporate tax rate is 35 percent. Other taxes include a value-added tax (VAT) and a capital gains tax. Fiscal reform was abandoned when an incoming loan was diverted for other uses. In the most recent year, overall tax revenue as a percentage of GDP was 9.4 percent.

Inflation is high, averaging 11.0 percent between 2005 and 2007. Prices are generally determined by the market, but the government restricts markups of some products (retailers, for example, may not mark up pharmaceutical products by more than 40 percent) and strictly controls the prices of petroleum products. Ten points were deducted from Haiti’s monetary freedom score to adjust for measures that distort domestic prices.

Authorization is required for some foreign investments, particularly in electricity, water, public health, and telecommunications. The government has expressed interest in liberalizing aspects of the investment regime, such as telecommunications and energy, but there has been little progress. Inadequate regulatory capacity, corruption, bureaucratic inefficiency, and political instability deter investment. Residents may hold foreign exchange accounts for specified purposes, and non-residents may hold them without restriction. There are no restrictions on payments, transfers, or capital transactions. Foreign ownership of land is restricted.

[...] New banking legislation that was submitted for parliamentary approval in mid-2007 was intended to strengthen the current framework for bank supervision. Capital markets are poorly developed.

Protection of investors and property is severely compromised by weak enforcement, a paucity of updated laws to handle modern commercial practices, and a dysfunctional and resource-poor legal system. Litigants are often frustrated by the legal process, and most commercial disputes are settled out of court if at all. Widespread corruption allows disputing parties to purchase favorable outcomes. Despite statutes protecting intellectual property, the weak judiciary and a lack of political will hinder enforcement.

Haiti’s relatively restrictive labor regulations hinder employment and productivity growth. The non-salary cost of employing a worker is moderate, but dismissing a redundant employee is relatively costly. Restrictions on the number of work hours are not flexible.

Às sombras

Ricardo Gondim mais uma vez vivendo às sombras dos Estados Unidos da América. Não percebe que se submete à frivolidade de atrelar a desgraça do Haiti às suas paixões socialistas e de perspectivas meramente políticas. Cita o materialismo, este que não doa aos oprimidos o patrimônio oriundo de suas ovelhas cativas.

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Alguns guardam o domingo indo à igreja/ Eu o guardo ficando em casa/ Tendo um sabiá como cantor/ E um pomar por santuário/ E, ao invés do repicar dos sinos na igreja/ Nosso pássaro canta na palmeira/ É Deus que está pregando, pregador admirável/ E o seu sermão é sempre curto. (Emily Dickinson)
Com quem faremos a revolução? A revolução – respondia – a faremos com os jovens. São estúpidos e entusiastas. (Robert Arlt em Os Lança-Chamas)

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